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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Irmã da Congregação Cristã no Brasil Estuda Teologia em Faculdade Teológica

Ao fazer um trabalho na faculdade de Teologia, qual não foi minha surpresa ao me deparar com essa irmã orando com o véu na cabeça. Ao indagar a uma pessoa sobre o ocorrido fui informado de que a mesma era membro da Congregação Cristã no Brasil. Fiquei intrigado com o fato, pois é notório o desprezo, e até mesmo repúdio, com que essa igreja trata o ensino teológico. Sinais dos tempos ou rebeldia dessa mulher? Só o tempo dirá.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Teologia Relacional - Cartas Debate Ricardo Gondim e Eros Pasquini


Rev. Augusto Nicodemus Lopes
 Talvez o Crer Também é Pensar esteja chegando atrasado nesse debate. Mas estou percebendo que agora é que esse assunto está saindo do meio acadêmico e indo para o meio da IGREJA . Então vejo que devo me envolver um pouco no assunto, pois nunca tive a pretensão de polemizar com ninguém gratuitamente. Só o faço agora por que acho que muitas pessoas podem se confundir com esse "negócio" doido. Estou me inteirando do assunto, adquirindo livros que tratam do tema e lendo tudo que é publicado na rede.
Como sempre deixei claro, esse blog é aberto a pessoas de qualquer confissão religiosa e todos podem participar do debate, porém nunca escondi de ninguém que sou cristão evangélico e continuo crendo nos postulados de minha fé. Quero ainda dizer que sempre admirei os dois maiores envolvidos nessa polêmica, os pastores Ricardo Gondim e Augusto Nicodemus Lopes. É incrível, mas fui influenciado pelos dois na minha caminhada cristã. Esse último é teólogo ligado a minha denominação de origem, Igreja Presbiteriana do Brasil, e aquele representa (ainda que de modo diferenciado) minha denominação atual, Assembleia de Deus.
Um primeiro olhar sobre o assunto pode nos induzir ao erro de taxar o debate a simples querela de calvinista versus arminiano, mas isso é um engano. O Dr. Augusto Nicodemus salienta esse ponto quando afirma que o assunto deve ser entendido, não como uma discussão entre calvinistas e arminianos, mas destes dois contra a teologia relacional. Vários líderes calvinistas e arminianos no âmbito mundial têm considerado esta visão da teologia relacional como alheia ao cristianismo” (Teologia Relacional, um novo deus no mercado http://www.monergismo.com/textos/presciencia/augustus_teologia_relacional.htm).
Percebo, é claro, apesar dessa sábia analise do Dr. Augusto, que o posicionamento teológico relacional é muito mais suscetível de surgir (e muito mais confortavelmente adequado)  em uma cosmovisão arminiana, do que em uma uma calvinista. Acredito que é muito mais fácil para um arminiano abraçar o conceito e o continuar sendo do que um calvinista o fazer sem o deixar de ser.

Bem, após essa introdução gostaria de iniciar com uma carta aberta do Pastor Eros Pasquini, publicada no site Monergismo que contém um texto do Pastor Ricardo Gondim, e as subseqüentes réplicas e tréplicas. Comentários serão bem vindos.

Na Paz de Cristo,
Guilherme Parizio
Pastor Ricardo Gondim

Tsunami: Carta Aberta a Ricardo Gondim

Publicado em 20 de março de 2009 – 13:57
por Pr. Eros Pasquini
A “carta aberta” abaixo foi escrita pelo Pr. Eros Pasquini em virtude de um artigo do Pr. Ricardo Gondim (“Quem Deus ouviu primeiro”), disponível no site do mesmo, no qual ele defende a heresia do “Open Theism” [Teísmo Aberto], fazendo declarações absurdas e blasfemas a respeito de Deus.
Para ajudar o leitor, postaremos os textos na seguinte ordem:
1 – Texto do Pr. Gondim – “Quem Deus ouviu primeiro”;
2 – “Carta aberta” do Pr. Eros Pasquini;
3 – Réplica do Pr. Gondim;
4 – Tréplica do Pr. Eros Pasquini;
Nos textos do Pr. Eros, deixaremos as citações do Gondim, às quais ele faz referência, em azul, para facilitar a leitura.

1 – Texto do Pr. Ricardo Gondim:

O texto abaixo foi retirado do site do Pr. Ricardo Gondim, mas não se encontra mais disponível.
Quem Deus ouviu primeiro?
Ricardo Gondim
No domingo, 26 de dezembro, cantamos Noite Feliz, Noite de Paz. A igreja lotada com cerca de duas mil pessoas, se comovia com o coral de homens e mulheres sorridentes, vestidos de batas prateadas. Celebramos uma autêntica noite de paz. Um holofote de luz azulada se refletia nas roupas colorindo todo o ambiente de uma penumbra bucólica. Apesar do verão em nosso hemisfério, um frio tímido e gostoso nos envolvia, dando a falsa impressão de um natal europeu. Em pé, cantamos que Deus é supremo e afirmamos, de olhos úmidos, que não há outro além do Senhor.
Naquele mesmo momento, na Ásia, os primeiros raios da madrugada da segunda-feira, dia 27, iluminavam o rosto inchado de crianças boiando em charcos de lama. O domingo terminara sem nenhum coral perfilado e sem cultos em nenhuma igreja. Só ressoavam gritos de mulheres, milhares delas, que mesmo acostumadas à miséria, nunca aprenderam a aceitar a morte. Na Índia, Sri Lanka, Tailândia, Indonésia, não houve noite de paz e ninguém “dormiu em derredor”.
Deus ouvia quem? Nosso culto intimista ou o caos asiático? Ele conseguia se manter atento à nossa gratidão pela mesa farta que devoramos dois dias antes, ou se curvava ao clamor dos órfãos do tsunami? Deus percebeu nossos olhos comovidos pelo presépio improvisado por nossos filhos ou atentava ao choro da viúva solitária? Será que o Senhor considerou ridículo o sermão do pastor que naquele momento prometia, um ano novo de prosperidade e que o Todo Poderoso cumpriria os desejos de um auditório egocêntrico? Será que Deus pode ser tão perfeito que consiga separar tão perfeitamente momentos simultâneos?
Não consigo dormir faz três dias. Permaneço em estado de choque pelo que vi. Não esqueço aquela cena das pessoas num ponto de ônibus, agarradas umas às outras, gritando desesperadas por um socorro que não veio. Chorei quando a televisão mostrou o desespero de um pai desmaiado por haver presenciado o resgate do corpo de seu filho de um monturo de lixo. Não me considero um exemplo de sensibilidade, e nem minha empatia pela sorte dos desvalidos serve de modelo para a humanidade. Se eu que sou mau, não consigo continuar impassível diante de cenas tão chocantes, Deus conseguiria?
Admito que esses meus questionamentos não ajudam a dar respostas sobre uma teodicéia convincente. Sei o que os filósofos e teólogos perguntam: “Se Deus é onipotente e bom, como pôde acontecer tamanha tragédia? Se Ele é onipotente e nada fez, resta-nos pensar que não é bom. Se é bom e não tomou nenhuma iniciativa, temos que deduzir que não é onipotente”.
Alguns respondem que na sua providência eterna, Ele sabe o que faz e que seus “atos divinos” não podem ser argüidos por nós, meros vasos de desonra; Deus dá vida e mata quem quiser. Confesso que já tentei, mas cheguei à conclusão que não há nenhuma força persuasiva no universo que me convença desses argumentos. Não aceito que Deus, para alcançar seu propósito, produza um sofrimento brutal em tanta gente miserável, que não pediu para nascer na beira de uma praia paupérrima. Outros argumentam que Deus não pode ser responsabilizado por um holocausto, pelos simples fato de que não foi Ele quem colocou as pessoas pobres naquela situação de extrema miséria. Esses afirmam que embora Deus já soubesse todos os desdobramentos do terremoto, não fez nada, porque queria manifestar sua glória a um mundo rebelde. Será que a glória de Deus custa tão caro? Meu coração continua insatisfeito.
Acredito que diante duma tragédia dessa magnitude precisamos repensar alguns conceitos teológicos. Por exemplo: o que significa a palavra Soberania; o que se entende por Onipotência? Conceitos como esses significam o quê dentro dos paradigmas das ciências sociais pós-modernas? Será que não estamos insistindo em ler as Escrituras com as mesmas lentes dos medievais? Não projetamos para a Divindade as mesmas idéias que eles nutriam sobre seus reis déspotas?
Estou convencido que a teologia clássica não responde mais às indagações que nascem diante de eventos fortuitos que matam indiscriminadamente; sequer consegue lidar com a aleatoriedade quântica ou com os movimentos despropositais da natureza. Sinto que a mensagem evangélica utilitária e geradora de sentimentos ensimesmados, perdeu seu sentido, mesmo tendo dominado o cristianismo ocidental por séculos.
Admito que não há respostas fáceis. Eu não saberia como consolar os parentes das mais de sessenta mil pessoas mortas – um terço eram crianças. Porém, estou certo que precisamos rever os alicerces em que montávamos nosso edifício teológico.
Hoje sei que Deus não nos criou com o intuito de micro gerenciar todos os nossos atos. Ele não queria que formássemos sistemas religiosos em que O responsabilizaríamos por triunfos e tragédias humanas. Precisamos tomar cuidado quando afirmamos: Deus é amor! O que essa frase significa em relação à Sua ausência misteriosa? Quais as últimas implicações do Seu desejo de se relacionar com a humanidade? A não-onipotência de Jesus Cristo é semelhante à não-onipotência de Jeová?
Só uma réstia da revelação brilha em minha alma: o Deus da Bíblia soberanamente criou o universo, mas ao formar mulheres e homens, abriu mão de sua Soberania para estabelecer relacionamentos verdadeiros. Ele não se despojou de sua natureza onipotente, que por definição não podia fazer, mas se esvaziou de suas prerrogativas divinas – evidenciadas em Jesus Cristo.
Não, Ele não pôde evitar a catástrofe asiática. Assim, sinto que a morte de milhares de pessoas, machucou infinitamente mais o coração de Deus do que o meu – o sofrimento é proporcional ao amor. O pouco que conheço sobre Deus e sobre seu caráter me indica que há muitas lágrimas no céu.
Mas Deus podia e pode se fazer presente no meio da tragédia. Ele podia ter evitado muitas mortes, se déssemos ouvidos aos seus princípios e verdades e a humanidade usasse o dinheiro gasto em armas e bombas para viver num mundo mais justo. Bastava que um sistema de alarme, construído pelos homens, tivesse soado e muitas vidas teriam sido poupadas. Agora, o rosto de Deus se evidenciará nos pés e nas mãos de cada voluntário que acudir aos que choram.
Continuo perplexo diante de tudo o que nos sobreveio e sem todas repostas, mas espero que minhas intuições estejam me conduzindo no rumo certo.
Soli Deo Gloria
Pastor Eros Pasquini

2 -”Carta Aberta” do Pr. Eros Pasquini:

Gondim me assusta! Em lugar de ser um “ministro da reconciliação”, num momento crítico da humanidade, ele se constitui num “ministro da tragédia”, alguém que, em lugar de aproveitar a oportunidade para firmar nossa convicção no Deus da Bíblia, parece se fascinar em semear dúvida… como se Deus estivesse perdendo Sua soberania, Sua onipotência, onipresença, etc.!
Você gostaria de passar a eternidade com o Deus que Gondim descreve? Eu não!!
“[Deus] não pode evitar a catástrofe asiática”…
“…o Deus da Bíblia soberanamente criou o universo, mas ao formar mulheres e homens, abriu mão de sua Soberania para estabelecer relacionamentos verdadeiros”…
Desde quando um Deus Soberano é um Deus a Quem nós possamos “entender”, “explicar Seus atos”, exceto naquilo que Ele mesmo se dignou, por graça e misericórdia, nos revelar através da Bíblia e de Jesus?
“Não aceito que Deus, para alcançar seu propósito, produza um sofrimento brutal em tanta gente miserável, que não pediu para nascer na beira de uma praia paupérrima”. A Bíblia de Gondim deve estar desprovida de Romanos 9.13-24! …terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão… a Escritura diz ao faraó: “Eu o levantei exatamente com este propósito: mostrar em você o meu poder, e para que o meu nome seja proclamado em toda terra”… Quem é você, ó homem, para questionar a Deus?
“Não aceito que Deus… Quem é você, ó Gondim, para questionar a Deus? Desde quando Deus nos deve satisfação do que faz? Não é o recado claro que Deus dá a Jó (38-41)? À luz das declarações de Gondim, como ficam versículos como Jó 42.2: Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado?
É claro que eu, também, como você e como Gondim, venho assistindo a tudo, perplexo, com lágrimas nos olhos, coração inquieto, inevitavelmente recorrendo à pergunta humana e natural “por quê?”, por vezes, principalmente pelos milhares que morreram sem Cristo, e pensando em tantos de nossos irmãos que perderam tudo que possuíam e também seus queridos (os irmãos que morreram, apesar do modo, estão com Cristo!) e estão lutando, em seus corações com conceitos como Soberania, Bondade, Amor de Deus, etc. Essa luta todos temos (os da Ásia, é claro, em grau além do que possamos imaginar). Mas Deus nos deu Sua Palavra – livros como Jó, situações como a de Oséias (ordenado por Deus a casar-se com uma mulher adúltera), como a de Ezequiel [livro de inconfundível relatar da Soberania de Deus em ação, onde Deus tem a liberdade de condenar, estando igualmente livre para ser misericordioso], onde o profeta é informado pelo SENHOR que perderá a mulher e é proibido de chorar a perda (24.15-18) para poder comunicar uma mensagem clara de Deus ao povo impenitente… a Bíblia de Gondim não tem esses textos? Pior que tem…
“A não-onipotência de Jesus Cristo é semelhante à não-onipotência de Jeová?” Quando Gondim solta uma pergunta assim, ele está revelando ignorância de um “pilar” da Cristologia – a unidade hipostática (união em uma única Pessoa, das naturezas humana e divina), querendo atribuir a Deus Pai uma humanidade que não possui, ou ele está querendo minar intencionalmente a confiança das pessoas no Deus que é:
o Espírito
o Vida
o Perfeito
o Único
o Eterno
o Santo
o Transcendente
o Auto-suficiente
o Infinito
o Imutável
o Onipotente
o Onipresente
o Onisciente
o Soberano
o Fiel
o Amor
o Luz
o Verdade
o Bom
o Sábio
o Justo
o Misericordioso
o Gracioso
o Irado (contra o pecado e os ímpios)
o Perdoador
o Paciente
o Reto
o …?
“Acredito que diante duma tragédia dessa magnitude precisamos repensar alguns conceitos teológicos…. [como Soberania, Onipotência]… dentro dos paradigmas das ciências sociais pós-modernas”. Essa é MUITO inquietante! Gondim certamente já leu a respeito de uma tragédia ligeiramente maior, chamada Dilúvio, provocada por Deus para julgar a malignidade humana, ou ele acha que isso é mito? Quantos morreram naquela “tragédia”? Com certeza, mais que 155,000!
“Diante duma tragédia dessa magnitude”, ele diz, sugerindo, nas entrelinhas, que sofremos mais hoje em dia. Vejo isso como um egocentrismo simplório, como se o mundo jamais tivesse experimentado outras catástrofes: o que dizer do terremoto de Shansi, China, que em 1556 matou 830,000 pessoas? Da inundação de 1887 na mesma China, que ceifou a vida de 1 milhão de pessoas? Do ciclone que em 1997 matou 300,000 no Paquistão e Bangladesh?
Até quando vamos nos calar diante de líderes cuja cosmovisão passa primeiro pelo filtro da mente humana, interpretando a História com base no raciocínio, na observação, na experiência e na sabedoria humanos, fazendo das ciências sociais o parâmetro, forçando a Bíblia – a auto-revelação inerrante e suficiente do Deus Soberano, Criador e Sustentador dos céus e da terra e nosso Salvador/Senhor – a ter que se encaixar com o que o homem, no auge de sua arrogância, pensa? 1 Coríntios 1.18-2.5 trata disso!
” …espero que minhas intuições estejam me conduzindo no rumo certo”, diz Gondim. A Bíblia responde: O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença incurável. Quem é capaz de compreendê-lo? (Jr 17.9). Ouve quem quer!
Será que vamos assistir a esse “sutil (embora nem tanto)” ressurgimento pós-moderno da neo-ortodoxia (misturada com deísmo), calados? Infelizmente, há bastante gente em nossas igrejas que está lendo e ouvindo homens que têm esse tipo de convicção. Há líderes que estão preferindo dar ouvidos a discursos como esse a “mergulhar nas Escrituras” à busca de respostas… dá menos trabalho! Esse tipo de interpretação da História está brotando em muitos seminários outrora sérios para com a Palavra de Deus e está gerando “líderes” que têm esse discurso de um deus impotente, de um dualismo que mais parece um Luke Skywalker sendo cada dias mais vencido por Darth Vader.
Solução? Judas 3, caríssimos! precisamos batalhar pela fé de uma vez por todas confiada aos santos!
Estamos vivendo dias na igreja brasileira que se chama pelo nome de Jesus Cristo em que precisamos atentar, mais do que nunca, criteriosamente à exortação de Paulo: Pregue a Palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos. (2 Tm 4.2-4).
Maranata!
Eros Pasquini

3 – Réplica do Pr. Ricardo Gondim à “Carta Aberta” acima:

Eros,
Recebi, consternado e triste, sua reação ao meu texto. Não por sua discordância, já que nenhum de nós fala “ex-catedra” sobre qualquer assunto. Porém, não estou acostumado a tanta virulência. Aliás, a essa altura de minha vida o que menos quero é vivenciar hostilidades, de qualquer espécie. Para mim, seria mais importante tê-lo como meu irmão do que um parceiro que simpatiza com minha teologia.
Ficou bastante claro que não concordamos em vários posicionamentos teológicos, mas infelizmente, não há mais clima relacional para debatermos os nossos conteúdos. Minha percepção é que você não se preocupou comigo como um irmão, mas se apressou em me rotular e me tratar como herege, que, “no auge de sua arrogância”, semeia pensamentos vãos. Fico triste que no debate de idéias, para consolidar os pontos de vista, firamos as pessoas com frases do tipo:”Gondim me assusta”; “Ele se constitui num ‘ministro da tragédia’”, “Você gostaria de passar a eternidade com o Deus que Gondim descreve?”.
Lamento que minhas inquietações tenham gerado tanta indignação em sua alma. Não, não estou querendo “minar intencionalmente a confiança das pessoas no Deus que é”. Talvez, antes de fazer uma declaração dessas, com forte conteúdo de juízo, você devesse passar algum tempo comigo para saber por onde caminha meu coração, minhas lágrimas pessoais, minhas dúvidas.
Sabe Eros? Você está corretíssimo em sua teologia, quem sou eu para negar os textos citados? Continue um paladino da ortodoxia. Defenda a fé. Confesso que não sou tão inabalável; assim, me recolho com minhas dores, procurando, na comunidade onde pastoreio, transformar meu “egocentrismo simplório”, em expressões concretas de compaixão.
Ricardo Gondim

4 -Tréplica do Pr. Eros Pasqnini:

Gondim,
Passei o dia fora, ontem, e só li seu e-mail há pouco.
Se a situação fosse inversa, eu também ficaria “consternado e triste”. Entretanto, sendo “profeta” como você também o é, a forma como você manifestou suas “lágrimas pessoais, por onde anda [seu] coração” – ou seja, publicamente - passou um recado claro: ele quer ser conhecido como quem pensa assim; e frases como “não há nenhuma força persuasiva no universo que me convença desses argumentos [que Deus age sem dar satisfação a nós]… não aceito que Deus, para alcançar seu propósito, produza um sofrimento brutal em tanta gente miserável, que não pediu para nascer na beira de uma praia paupérrima… apontam para o fato de que você aparentemente já se fechou para o que a própria Bíblia diz a esse respeito… não são bem as minhas declarações que tem “forte conteúdo de juízo”… suas declarações falam por si só: Conceitos como esses [Soberania, Onipotência) significam o quê dentro dos paradigmas das ciências sociais pós-modernas? Você mudou de cosmovisão – abandonou sua confiança na suficiência das Escrituras para colocar os paradigmas das ciências sociais pós-modernas como parâmetro para se enxergar a Deus. E quando você acrescenta: Será que não estamos insistindo em ler as Escrituras com as mesmas lentes dos medievais?, são minhas declarações que tem “forte conteúdo de juízo”, ou você não está dizendo que quem mantém sua confiança na literalidade da Palavra de Deus é retrógrado?
Se você tivesse, digamos, desafiado pessoas que vivem da Palavra, pregam a Palavra, para uma reflexão fechada, séria, de coração aberto – tipo criar um e-group só para isso – com o nome de todos citado no “Para, Cc”, eu veria isso com olhos de quem se lembra que, de vez em quando, minha cabeça também pira, e só a mulher com quem, pela graça de Deus, estou casado há quase 32 anos conhece boa parte dessas “minhas inquietações”… aí, alguns (poucos) amigos bem chegados conhecem uma parte menor dessas “minhas inquietações”… até que através da ajuda de um ou vários deles, ou de uma boa leitura de conteúdo bíblico, de uma pregação bíblica, ou através de meu próprio tempo na Palavra e oração… Deus se mostra novamente Soberano, Gracioso, Misericordioso, etc. Aí as “minhas inquietações” provam ser fruto de um homem que, conhecedor da Palavra (como você, também, o é), conhecedor de tantas bênçãos (como você, também, o é), por um descuido, tirou os olhos de Jesus. Não foi a única vez que esse “tirar os olhos de Jesus” aconteceu, mas a que mais me marcou foi quando esbravejei com Deus (punho cerrado) quando soube que meu pai estava com câncer e tinha dias contados. Não recomendo isso para ninguém, e sei que Deus não é glorificado quando temos esse tipo de atitude… mas Deus é tão gracioso e misericordioso que usou aquele momento (são passados 28 anos) para que a Soberania Dele deixasse de ser um conceito de sala de aula, guardado no intelecto, e passasse a ser “massa do meu sangue” – algo bem presente no meu coração. Deus me encheu de tanta paz e convicção que no culto de sepultamento do papai, meu texto foi: Os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; como, pois, poderá o homem entender o seu caminho? Pv 20.24.
Mas do jeito que você fez – publicamente – foi mais que “sua inquietação” … mesmo que não tenha sido sua intenção, acabou sendo “sua ‘pregação’ “! Gondim, você sabe que tem um público (grande) te ouvindo… certamente muitos que nunca passaram sequer por uma Escola Dominical, um grupo de estudo bíblico, etc. … lançar para esse tipo de público “suas inquietações”, você me deixou alguma outra alternativa?
Entretanto, acreditando na sinceridade* de suas declarações abaixo, dando-lhe, portanto, o benefício da dúvida, e isso aliado ao acima exposto, talvez eu tenha deixado de lado uma provável alternativa… ao dizer o que você disse, da forma que disse, e para quem disse… você agiu, espiritualmente falando, com irresponsabilidade (precipitação), em lugar de ter intenção errada. E se esse for o caso, o tempo dirá, e eu serei o primeiro a reconhecer que errei na minha análise.
Encerro pedindo que você leia o artigo anexo: vem de um obreiro da HCF -Hospital Christian Fellowship, no Sri Lanka, que ao contrário de nós dois, está vivendo na pele o drama que nós só vimos à distância. Quando li, fiquei envergonhado de chegar a “pirar” por motivos tão menores, comparativamente insignificantes. Espero que faça bem ao teu coração*.
Eros

-O Anexo:

Tradução da carta disponível na internet (sem revisão)
Disseram-me: Os restantes, que não foram levados para o exílio e se acham lá na província, estão em grande miséria e desprezo; os muros de Jerusalém estão derribados, e as suas portas queimadas a fogo. Tendo eu ouvido estas palavras, assentei-me e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus”.
Neemias 1: 3 e 4
Saudações no nome de Jesus.
Deus é Bom! Deus é Gracioso! Deus é Generoso! Deus é Ótimo!
Obrigado
Muito obrigado por todas as expressões de amor e preocupação e cuidado para conosco e com todas as nações que foram atingidas pelas ondas do maremoto. O que uma devastação tem causado! Obrigado também por toda a ajuda prática enviada. Por favor, nos perdoe pela demora em responder. Eu estava em Batticaloa, uma das piores áreas atingidas, executando apoio médico.
Essa manhã, enquanto lia as muitas cartas que recebemos, chorei. Elas me tocaram profundamente. OBRIGADO! O amor e orações de vocês curaram meu enfraquecimento e meus sentimentos internos.
Colegas do Hospital Christian Fellowship
Alguns de vocês perguntaram sobre nossas colegas. Sim, alguns de nossos caros amigos perderam alguns de seus queridos. Uma doutora perdeu sete de sua família, incluindo os pais. Outro perdeu cinco membros de sua família. Muitos crentes também morreram. Um pastor, enquanto ajudava as pessoas mais velhas de sua igreja, perdeu a esposa e dois filhos. Deus está os confortando. Muitas crianças também morreram. Há muitos outros bastante afetados.
Situação
Estamos muito preocupados com a terrível destruição da Sumatra, Índia, Andaman, Myanmar, Tailândia, Malásia, Maldivas e outros lugares. Aqui no Sri Lanka, o número de mortos continua crescendo. É maior do que ouvimos ou esperamos. Muitos estão desaparecidos e corpos continuam a serem descobertos.
Há 750 centros de refugiados e muitos estão desabrigados. Os auxílios terão que ser bem coordenado a curto e longo prazo. Levará muito tempo para escrever as histórias de destruição de vidas e casas, etc. e também as surpreendentes histórias de sobreviventes. Deus estava bem presente em todas elas apesar do horror.
As pessoas ainda estão meio estupefatas e chocadas. Há luto e lágrimas e um senso de desesperança e choque. A Igreja no Sri Lanka está realmente agindo com compaixão e cuidado.
Auxílio
Estamos envolvidos com o auxílio médico e trabalhando na coordenação com a Aliança Evangélica Nacional do Sri Lanka (afiliada a WEF). Foi muito tocante ministrar a centenas de refugiados e também ministrar ao Corpo de Cristo nessas áreas. Pudemos ver como a palavra de Deus causou tanto impacto e os animou. É muito difícil saber como coordenar, apesar disso Deus está ajudando.
Obrigado de novo pela vontade de muitos de virem aqui. Hoje o governo disse que há médicos estrangeiros o suficiente e que equipes médicas terão que ser registradas. Ainda procuramos clareza nisso. Ainda acreditamos que há uma enorme necessidade, mas é preciso sabedoria para coordenar isso através de centros baseados nas igrejas.
Promessas
Em meio a tudo isso Deus está dando promessas para o futuro. Na noite do dia 31 eu estava pensando que era provavelmente a primeira vez em 40 estanhos anos que eu não ia a um culto de véspera de ano novo. Mesmo assim vieram esses pensamentos:
2005 – Um ano do favor do Senhor.
a) 1 hora de maremotos que causou destruição. “Senhor, que esse ano seja cheio com ondas após ondas da graça de Deus e Sua amorosa bondade”.
b) Um severo terremoto – “Senhor, mande um terremoto espiritual às nações, um verdadeiro avivamento espiritual”.
c) Morte e destruição – “Senhor, nos mande vida em abundância”.
d) Tristeza e luto – “Senhor, nos dê um ano de alegria. Oh! Por um ano do favor do Senhor”.
Também estamos alertas sobre a segunda vinda de Cristo. Como repentinamente as coisas acontecem, devemos falar mais sobre a sua segunda vinda e vida com valores eternos em mente. Ele já está voltando!
Jeová Jireh
Deus observará isso!
Deus será visto!
Deus tornará isso claro!
Não agora, mas nos dias futuros, algum dia, de alguma maneira, iremos entender.
Em nossa viagem para o Oriente, eu fui secretamente e surpreendentemente tocado por como Deus provê. De pessoas a veículos, a acomodações, a remédios, a refeições, a aberturas, a finanças. Foi simplesmente muito, muito precioso.
Sim, Ele é Jeová Jireh! E Ele tem dado a maior provisão para a maior necessidade de todas, JESUS!
Também, enquanto ministramos àqueles que estavam de luto, os seguintes pensamentos vieram à minha mente.
Jesus é o Homem de dores – Então Ele pode confortar os feridos.
Jesus morreu e conquistou a morte – Então Ele pode nos fortalecer em face à morte e remover o medo dela.
Ele é a Luz – Então Ele pode iluminar a nossa escuridão.
Ele é o Deus da Aliança. Êxodo 34 : 5 e 6 – Ele julga o pecado até a terceira e quarta geração. Mas sua misericórdia é 250 vezes mais, a mil gerações.
Também para as crianças que morreram e foram arrastadas, o Senhor irá levantar uma jovem, santa geração, os nazireus.
Aquele que não poupou a seu próprio filho, antes por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?“.Romanos 8:32
Ore por sabedoria para saber como coordenar as coisas aqui com respeito ao trabalho médico.
Obrigado de novo por toda essa expressão de amor, preocupação e ajuda.
Com muito amor,
Arul & Ranji & Família da HCF



terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Brasil Terá Escola Para Gays


Em 2010 será inaugurada em Campinas, SP, a primeira instituição educacional voltada para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBTTT), colocando o homossexualismo no currículo. O projeto, com verba governamental federal e estadual, tem o apoio da ONG gay E-Jovem. Além da visibilidade à cultura gay, a Escola Jovem LGBTTT pretende ajudar jovens a se aceitar. Pretende divulgar a “cultura gay” e atacar os “setores retrógrados e fundamentalistas da sociedade”.

Os alunos deverão ser homossexuais de 12 a 20 anos, se aceitando heterossexuais e de outras faixas etárias em havendo vagas. Bolsas serão oferecidas para os de fora de Campinas. Estarão disponíveis, dentre os cursos, a maioria na área das artes, um em “formação de drag queens". A matéria não informa se reconhecido pelo MEC.

Fonte: Diário de Pernambuco, 24.01.2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

Ação contra crucifixos mostra intolerância


Por William Douglas

Veja esta notícia publicada no Portal IG: “(…) em atenção à queixa de um cidadão, que se sentiu discriminado pela presença de um crucifixo no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão entrou com uma ação civil pública para obrigar a União a retirar todos os símbolos religiosos ostentados em locais de atendimento ao público no Estado. A ação, com pedido de liminar, visa garantir a total separação entre religião e poder público, característica de um Estado laico, ainda que de maioria cristã, como o Brasil. ‘Minha ação restringe-se aos ambientes de atendimento ao público. Nada contra o funcionário público ter uma imagem de santo, por exemplo, sobre a sua mesa de trabalho’. Católico praticante (‘comungo e confesso’, diz Dias, 38 anos, o Procurador responsável pela ação. Uma decisão favorável no TRF-SP certamente levará o assunto a outras instâncias. O único precedente que existe é negativo. Em junho de 2007, o Conselho Nacional de Justiça indeferiu o pedido de retirada de símbolos religiosos de todas as dependências do Judiciário. Na ação pública, Dias lembra que, além de estarmos em um Estado laico, a administração pública deve zelar pelo atendimento aos princípios da impessoalidade, da moralidade e da imparcialidade, ou seja, garantir que todos sejam tratados de forma igualitária. O procurador entende, nesse sentido, que um símbolo religioso no local de atendimento público é mais que um objeto de decoração, mas pode ser sinal de predisposição a uma determinada fé. “Quando o Estado ostenta um símbolo religioso de uma determinada religião em uma repartição pública, está discriminando todas as demais ou mesmo quem não tem religião, afrontando o que diz a Constituição’.” (04/08 - 16:29 - Mauricio Stycer, repórter especial do IG).

O tema vem sendo cada vez mais discutido e, ao meu ver, está sendo objeto de uma interpretação equivocada por aqueles que desejam a retirada dos símbolos religiosos. O Estado é laico, isso é o óbvio, mas a laicidade não se expressa na eliminação dos símbolos religiosos, e sim na tolerância aos mesmos.

A resposta estatal ao cidadão queixoso, mencionado acima, não deveria ser uma ação civil pública, mas uma simples orientação, no sentido de que o país ter uma formação histórica-cultural cristã explica que haja na parede um crucifixo e que tal presença não importa em discriminação alguma. Ao contrário, o pensamento deletério e a ser combatido é a intolerância religiosa, que se expressa quando alguém desrespeita ou se incomoda com a opção e o sentimento religioso alheios, o que inclui querer eliminar os símbolos religiosos.

Ao contrário do que entende o ilustre Procurador mencionado, a medida não se limitará aos ambientes de atendimento ao público. O próximo passo será proibir também os símbolos na mesa de trabalho, seja porque o ambiente pertence ao serviço público, seja porque em tese poderia ofender algum colega que visualizasse o símbolo. No final, como se prenuncia no poema “No caminho, com Maiakóvski”, o culto e devoção terão que ser feitos em sigilo, sempre sob a ameaça de que alguém poderá se ofender com a religião do próximo. Nesse passo, eu, protestante e avesso às imagens (é notório o debate entre protestantes e católicos a respeito das imagens esculpidas de santos), tive a ocasião de ver uma funcionária da Vara Federal onde sou titular colocar sobre sua mesa uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida. A minha formação religiosa e jurídica, onde ressalto a predileção, magistério e cotidiano afeito ao Direito Constitucional, me levou a ver tal ato com respeito, vez que cada um escolhe sua linha religiosa. A imagem não me ofendeu, mas sim me alegrou por viver em um país onde há liberdade de culto. Igualmente, quando vejo o crucifixo com uma imagem de Jesus não me ofendo por (segundo minha linha religiosa) haver ali um ídolo, mas compreendo que em um país com maioria e história católica aquela imagem é natural. O crucifixo nas cortes, independentemente de haver uma religião que surgiu do crucificado, é uma salutar advertência sobre a responsabilidade dos tribunais, sobre os erros judiciários e sobre os riscos de os magistrados atenderem aos poderosos mais do que à Justiça.

Vale dizer que se a medida for ser levada a sério, deveríamos também extinguir todos os feriados religiosos, mudar o nome de milhares de ruas e municípios e, ad reductio absurdum, demolir simbolos e imagens, a exemplo, que identificam muitas das cidades brasileiras, incluindo-se no cotidiano popular de homens e mulheres estratificados em variados segmentos religiosos. Ao meu sentir, as pessoas que tentam eliminar os símbolos religiosos têm, elas sim, dificuldade de entender e respeitar a diversidade religiosa. Então, valendo-se de uma interpretação parcial da laicidade do Estado, passam a querer eliminar todo e qualquer símbolo, e por consequência, manifestação de religiosidade. Isso sim é que é intolerância.

Embora cristão, as doutrinas católicas diferem em muitos pontos do que eu creio, mas se foram católicos que começaram este país, me parece mais que razoável respeitar que a influência de sua fé esteja cristalizada no país. Querer extrair tais símbolos não só afronta o direito dos católicos conviverem com o legado histórico que concederam a todos, como também a história de meu próprio país e, portanto, também minha. Em certo sentido, querer sustentar que o Estado é laico para retirar os santos e Cristos crucificados não deixaria de ser uma modalidade de oportunismo.

Todos se recordam do lamentável episódio em que um religioso mal formado chutou uma imagem de Nossa Senhora na televisão. Se é errado chutar a imagem da santa, não é menos agressivo querer retirar todos os símbolos. Não chutar a santa, mas valer-se do Estado para torná-la uma refugiada, uma proscrita, parece-me talvez até pior, pois tal viés ataca todos os símbolos de todas as religiões, menos uma. Sim, uma: a “não religião”, e é aqui que reside meu principal argumento contra a moda de se atacar a presença de símbolos religiosos em locais públicos.

A recusa à existência de Deus, a qualquer religião ou forma de culto a uma divindade não é uma opção neutra, mas transformou-se numa nova modalidade religiosa. Se por um lado temos um ateísmo como posição filosófica onde não se crê na(s) divindade(s), modernamente tem crescido uma vertente antiteísta. Para tentar definir melhor essa diferença, vale dizer que se discute se budistas e jainistas seriam ou não ateus, por não crerem em divindades além daquela representada pela própria pessoa ou grupo delas, no entanto jamais se discutiria se um budista é ou não antiteísta. É inegável reconhecer-se que esta nova vertente religiosa tem seus profetas, seus livros sagrados e dogmas. Como a maior parte das religiões, faz proselitismo, busca novos crentes (que nessa vertente de fé, são os “não crentes”, “not believers”, os que optam por um credo que crê que não existe Deus algum).

É conhecida a campanha feita pelos ateus nos ônibus de Londres. A British Humanista Association colocou o anúncio There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life (“Provavelmente Deus não existe. Então, pare de se preocupar e aproveite sua vida”) nas laterais de ônibus britânicos, ao lado dos tradicionais anúncios religiosos. Repare-se que o “provavelmente” demonstra educação, senso político ou cortesia, e que nos cartazes nos ônibus todas as letras estavam em caixa alta, eliminando a discussão sobre se deveriam escrever Deus com “D” ou “d”. Mas nem todos os ateus são educados e cordatos, embora uma grande quantidade deles, grande maioria eu creio, o seja.

Assim como o Protestantismo foi uma reação aos que não estavam satisfeitos com o catolicismo romano, o antiteísmo, ou ateísmo militante, que vemos hoje, é uma reação dos que estão insatisfeitos com a religião. Interessante perceber que esta linha de ateus é intolerante e, como foi historicamente comum em todas as religiões iniciantes ou pouco amadurecidas, mostrou-se virulenta e desrespeitosa no ataque às demais. Esta nova religião, a “não religião”, ao invés de assumir o controle ou titularidade da representação divina, optou por entender que não existe Deus nenhum. Em certo sentido, ao eliminar a possibilidade de um ser superior, assumiu o homem como o ser superior. Aqui o homem que professa tal tipo de crença não é mais o representante de Deus, mas o próprio ser superior. Nesse passo, a nova religião tem outra penosa característica das religiões pouco amadurecidas, consistente na arrogância e prepotência de seus seguidores, apenas igualada pelo desprezo à capacidade intelectual dos que não seguem a mesma linha de pensamento.

Assim, enquanto existe um ateísmo que simplesmente não crê e que demonstra as razões disso em um ambiente de respeito e diversidade, vemos crescer também um outro ateísmo, agressivo, que não apenas não livrou o mundo dos males da religião, mas também passou a reprisá-los.

O principal profeta dessa religiosidade invertida (mas nem por isso deixando de ser uma manifestação religiosa) é Richard Dawkins, autor do livro “Deus, um Delírio”. Ele está envolvido, como qualquer profeta, na profusão de suas ideias, fazendo palestras e livros, concedendo entrevistas e fazendo suas “cruzadas”. A Campanha Out (em inglês: Out Campaign) é uma iniciativa proselitista em favor do ateísmo, tendo até mesmo um símbolo, o “A” escarlate. A campanha atualmente produz camisetas, jaquetas, adesivos, e broches vendidos pela loja online, e os fundos se destinam à Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência (RDFRS). Algo que não deixa de ser muito semelhante às campanhas financeiras típicas de outras manifestações de fé.

Como alguns profetas religiosos, Dawkins não poupa pessoas ilustres de credos concorrentes. Por exemplo, em seu livro, ele diz sobre Madre Teresa o seguinte: “(...) Como uma mulher com um juízo tão vesgo pode ser levada a sério sobre qualquer assunto, quanto mais ser considerada seriamente merecedora de um Premio Nobel? Qualquer um que fique tentado a ser engabelado pela hipócrita Madre Teresa (...)” (pág. 375).

Naturalmente, entendo que Dawkins e seus seguidores têm todo o direito de pensarem e professarem qualquer fé, mesmo que seja a fé na inexistência de Deus e nos malefícios da religião. Contudo, só porque não creem em um Deus ou vários dEles, não estão menos sujeitos aos valores, princípios e leis que, se não nos obrigam à fraternidade, ao menos nos impõem a respeitosa tolerância. Outra coisa que não se pode é identificar em qualquer Deus ou símbolo religioso um inimigo e se tentar cooptar a laicidade do Estado para proteger sua própria linha de pensamento sobre o assunto religião.

Ao meu ver, discutir os símbolos religiosos é mais fácil do que enfrentar a distribuição de renda, a fome, injustiça e a desigualdade social. Não nego a importância do assunto, mas acharia cômico se não fosse trágico que as pessoas se ofendam com uma cruz o bastante para acionar o Estado e não o façam diante de outras situações evidentemente mais prementes. Talvez mexer com os religiosos seja mais simples, divertido e seguro, mas certamente não demonstra uma capacidade superior de escolher prioridades. Portanto, parece conveniente lembrar que católicos, judeus, evangélicos, espíritas e muçulmanos, e bom número de ateus também, gastam suas energias ajudando aos necessitados. Tenho a esperança de que nas discussões haja mais coerência e menos “pirotecnia” e “perfumaria” de quem discute o sexo, digo, a existência dos anjos em vez de enfrentar os verdadeiros problemas de um país que, salvo raras e desonrosas exceções, é palco de feliz tolerância religiosa.

A eliminação dos símbolos religiosos atende aos desejos de uma vertente religiosa perfeitamente identificada, e o Estado não pode optar por uma religião em detrimento de outras. A solução correta para a hipótese é tolerar e conviver com as diversas manifestações religiosas. Assim, os carros poderão continuar a falar em Jesus, Buda, Maomé, Allan Kardec ou São Jorge sem que ninguém deva se ofender com isso. Ou, se isso ocorrer, que ao menos não receba o beneplácito de um Estado que optou por ficar equidistante das inúmeras, infinitamente inúmeras, formas de se pensar o tema . Não ter fé e não apreciar símbolos religiosos é apenas uma delas, respeitabilíssima, mas apenas uma delas.

Por fim, acaso fosse possível ser feita uma opção, não poderia ser pela visão da “minoria”, mas da “maioria”. Talvez essa afirmação choque o leitor. Dizer que se for para optar, que seja pela “maioria” choca, pois o conceito de “respeito às minorias” já está razoavelmente assimilado. Mas também deveria chocar a ditadura da minoria, a tirania dos que se transformam em vítimas ao invés de evoluírem o suficiente para ver nos símbolos religiosos não uma ofensa, mas um direito, e entender que os que já estão por aí, nas ruas, repartições e monumentos são apenas uma consequência da nossa longa formação histórica e cultural.

Em suma, espero que deixem este crucifixo, tão católico apostólico romano quanto é, exatamente onde ele está. Excluir símbolos é fazer o Estado optar por quem não crê. A laicidade aceita todas as religiões ao invés de persegui-las ou tentar reduzi-las a espaços privados, como se o espaço público fosse privilégio ou propriedade de quem se incomoda com a fé alheia. Eu, protestante e empedernidamente avesso às imagens esculpidas, as verei nas repartições públicas e saudarei aos católicos, que começaram tudo, à liberdade de culto e de religião, à formação histórica desse país e, mais que tudo, ao fato de viver num Estado laico, onde não sou obrigado a me curvar às imagens, mas jamais seria honesto (ou laico, ou cristão, ou jurídico) me incomodar com o fato de elas estarem ali.

William Douglas juiz federal, professor, escritor, mestre em Direito - UGF, Especialista em Políticas Públicas e Governo – EPPG/UFRJ.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Cristãos e Bebidas Alcoólicas: Abstêmios e Temperantes


Diante da veiculação em nossa página e lista do excelente artigo do Rev. Flávio Adair intitulado 'Legalismo ou Coerência' sobre a relação dos cristãos e as bebidas alcoólicas, esclarecemos que:



1) Os evangélicos se dividem, quanto ao tema, em duas correntes: a) os abstêmios; b) os temperantes;



2) Há denominações que optam formalmente por uma ou outra dessas correntes, em seu aspecto docente e disciplinar; há denominações que não tomaram uma opção formal, mantendo o tema dentro da lista de 'adiáforos', como uma cláusula de consciência, convivendo, em seu interior, ambas as correntes. A Comunhão Anglicana, suas Províncias e Dioceses se situam nesse último grupo;



3) Abstêmios e Temperantes concordam com a condenação do vício, da embriaguez, do consumo por menores, da propaganda, e com os riscos à saúde individual e saúde e a segurança pública, bem como das tragédias sociais decorrentes dessa dependência química, particularmente na família;



4) O texto veiculado pelo Rev. Flávio Adair representa – com propriedade e conteúdo – a posição pró-abstinência;



5) Os Temperantes, por seu lado, chamam a atenção para a realização do primeiro milagre do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, na forma da multiplicação de vinho de qualidade, e que esse consumo fazia parte do cardápio gastronômico da Palestina na época, e em outras culturas anteriores e posteriores aos tempos apostólicos, especialmente em climas frios e de necessidades calóricas, bem como o uso ininterrupto do vinho na Santa Ceia dos tempos apostólicos até 1855 (quando o suco de uva foi usado pela primeira vez, pelos metodistas, no Oeste dos EUA), e que há uma relação entre esse uso moderado alimentar e a redução de certas cardiopatias, segundo escolas médicas. Pesquisas têm indicado dados de herança genética no alcoolismo, e que há maiores propensões para o alcoolismo entre filhos de alcoólatras ou de abstêmios do que de temperantes. Reconhecem, ainda, que a autodisciplina da temperança uma maturidade além do que é exigido pela opção pela abstinência ou por normas eclesiásticas que a exijam.



A Diocese do Recife, como afirma em um dos seus documentos doutrinários, procura fomentar a ética, a disciplina e a santidade, o que implica na necessidade de colocarmos o tema, com prioridade, em nosso trabalho pastoral, bem como a liberdade de expressão nos assuntos adiáforos, visando, em última análise, a maturidade dos seus membros, com discernimento, e a colaboração para o bem-comum da Igreja e da sociedade, em uma atmosfera de respeito mútuo e amor fraterno.

Paripueira (AL), 12 de janeiro de 2010.

Anno Domini.



+Dom Robinson Cavalcanti, ose

Bispo Diocesano

Legalismo ou Coerência?


“Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual é a vontade do Senhor”

Ef 5:17

Rev. Flávio Adair (¬)



Quero começar preparando o leitor de que tratarei de um assunto que em nosso meio causa discussão, mas quase sempre termina com indefinição: Abstinência de bebidas alcoólicas é legalismo ou coerência?



Para nós cristãos, legalismo está relacionado ao uso e abuso das Escrituras (ou não) para ditar regras de procedimento para o crente a fim de que este venha obter sua salvação ou no mínimo demonstrar maior espiritualidade. Normalmente pessoas que se utilizam destes abusos, distorcem a Palavra de Deus por desconhecimento ou como forma de manipular os outros e, assim, contrariam a liberdade e salvação que nos foi garantida única e exclusivamente pelo sacrifício de Jesus Cristo.



A coerência pode ser dita como a relação harmônica entre situações, acontecimentos ou ideias, ou seja, ligação, conexão ou lógica entre ideias.



Para nós cristãos, não existe coerência entre legalismo e a nova vida em Cristo Jesus, “estais, pois, firme na liberdade com que Cristo nos libertou e não torneis a meter-vos no jugo da servidão” (Gl 5:1)



Por outro lado, não é incomum presenciarmos pessoas defendendo o uso do álcool como algo inofensivo e sem consequências no meio espiritual.



Quero dizer que não ignoro que existem muitas pessoas que podem ingerir álcool sem se tornar escravos do mesmo, sei também que a Bíblia não condena diretamente a ingestão de bebidas alcoólicas e, sim, o seu uso abusivo; sei que em alguns casos foi recomendado o uso do vinho com efeitos terapêuticos, assim com alguns médicos, contestados por outros, recomendam uma dose diária de whisky para alguns de seus pacientes.



Não quero entrar em trocas de versículos, utilizando-os para recomendar a abstinência alcoólica, apesar de encontrar na Bíblia suficientemente textos para isto.



Quero sim, dizer que, ao mesmo tempo em que sou contra o legalismo que escraviza, e a favor da liberdade em Cristo Jesus, sou a favor do ensino coerente com o Evangelho, a Boa notícia que pretende trazer vida e vida em abundância.



Ao contrário do legalismo que se contradiz com o Evangelho da salvação, coerência é uma exigência para todo o crente e especialmente para pastores e, por isso, quero perguntar: Onde está a prática da conhecida frase: “católicos para toda a verdade de Deus e protestantes contra todo o erro humano”?



O álcool está sendo combatido pelo estado laico como grande causa de males sociais, fazendo parte das “drogas lícitas” que mais causam dependência, superando a maconha, cocaína, LSD e o crack, segundo lugar nas estatísticas de causa de mortes (direta e indiretamente) superando o câncer e a AIDS, grande inimigo dos adolescentes que começam a ingerir bebidas alcoólicas na faixa etária entre 12 e 13 anos e, muitas destas, são levadas a prostituição .



Se ingerido por longo período, tem efeito corrosivo sobre os órgãos, como fígado e pâncreas causando a cirrose. Tem efeitos devastadores sobre o Sistema Nervoso Central, causando diminuição dos sentidos, prejudicando a coordenação motora. O uso e abuso do álcool tiram a razão do indivíduo, levando-o, muitas vezes, a cometer crimes.



Fatores agravantes e que devem ser levados em conta especialmente por nós pastores, são: a situação social, econômica e emocional. Quem já teve oportunidade de acompanhar indivíduos e até famílias inteiras destruídas por este mal, sabe muito bem o que estou falando.



O Código Nacional de Trânsito diz que duas latas de cerveja, dois copos de vinho ou uma dose de bebida destilada significa estado de embriaguez. Será que simplesmente sortearam este numero? E, sendo verdade, como fica ao crente que ultrapassa essas medidas a frase “não vos embriagueis com vinho..,, mas enchei-vos do Espírito Santo” Ef 5:18 é legalismo ou coerência?



Usar a cultura étnica ou regional para defender o uso do álcool também não é coerente com o Evangelho, pois teríamos muita dificuldade inclusive em combater o legalismo.



Eu mesmo, como descendente de italianos e alemães, tomei meu primeiro porre de vinho aos nove anos de idade e, mesmo passando dois meses sem poder sentir o cheiro de vinho, fui visto por meus colegas como “homem”.



O álcool destrói física, emocional e espiritualmente homens, mulheres e crianças. Qual a coerência com o Evangelho?



Poderia escrever um livro a este respeito, montar sites, desenvolver campanhas, carregadas de números autênticos, testemunhos verídicos, e exemplos sem fim, mas acredito que pessoas especializadas e autoridades já o têm feito com mais propriedade do que eu; gostaria apenas de chamar a atenção da Igreja para um discurso coerente com a vida que Jesus Cristo espera de nós.



Quando iniciei meus estudos no Seminário Batista, ouvi de um professor a seguinte pergunta: “na sua igreja as pessoas fumam e bebem não é?”. E eu como anglicano que crê na Obra do Espírito Santo respondi: “correção professor, na minha igreja sempre tem pessoas que ainda fumam e que ainda bebem, na sua não?



Desde o começo, nunca achei que beber, fumar, mentira, adultério e etc., fossem motivos para exclusão ou sequer acepção de pessoas, mas sempre foram, para mim, alvo de pregação e ensino contra sua práticas, não por legalismo, mas por coerência com os ensinos do Senhor de uma vida saudável, espiritual, emocional e física.



Evangelho para todo o homem está coerente com Evangelho para o homem todo, não?



Durante anos temos levado centenas de homens ao encontro com Jesus Cristo através do Cursilho de Cristandade. Ali tenho presenciado seres perdidos, depravados, insensíveis ao mundo e às suas próprias famílias serem renovados pelo Espírito Santo de Deus (eu sou um). Tenho visto homens pobres e ricos, desconhecidos e influentes na sociedade, colocarem-se de joelhos, entregando suas vidas a Cristo e decidindo fazer tudo novo.



Mas, durante anos, tenho ouvido homens testemunharem que em suas decúrias, escutam que não é problema nenhum a ingestão de bebidas alcoólicas para o crente. O problema maior para mim não é exatamente esta afirmação que pode ser vista e dita de várias formas, assim como sua interpretação. O problema é que não me recordo de nenhum estudo de decúrias que tratem deste assunto e me pergunto: Por que ele está sempre presente em pelo menos uma decúria por Cursilho e, às vezes, levantado por líderes?



Onde está a coerência com o “torna-te padrão” que Paulo exorta a Timóteo?



Sabemos que muitos não perseveram por questões pessoais, mas outros se afastam porque sendo “normal” não conseguiram se afastar dos bares e abandonaram a decúria, outros não querendo sequer testar sua capacidade de superação contra o álcool decidiram por outras igrejas em que a ingestão alcoólica não é proibida, pelo menos não é incentivada; quanto a estes, glória a Deus, mas, e quanto aos outros? Estamos preparados para responder ao Senhor coerentemente?



Quero ainda lembrar que é impossível aos olhos humanos determinar quem está predisposto ao alcoolismo, quando alguém de fato se tornará de um potencial alcoólatra em um alcoólatra compulsivo. Quem nunca foi, deveria ir à uma reunião de Alcoólicos Anônimos, algumas acontecem em Igrejas anglicanas, outras ao nosso lado, não é difícil encontrar e, como já disse, a literatura a esse respeito também é farta.



Neste assunto tão polêmico e cheio de argumentos, recorro a Paulo que falando da liberdade dos cristãos exorta-nos para que esta mesma liberdade não se torne motivo de tropeço para outros e que nosso conhecimento (ou maturidade espiritual) não destrua o mais fraco, pois isto se torna imediatamente pecado contra esse irmão e contra Cristo.



Se Paulo naquele contexto afirma “é por isso que, se a comida fizer meu irmão tropeçar, nunca mais comerei carne, para não lhe servir de tropeço” 1 Co 8:13, eu, em nosso contexto, afirmo: Se beber fizer meu irmão tropeçar, prefiro não defender a ingestão de bebidas alcoólicas.



Não por legalismo, mas por coerência!



Que o Senhor nos abençoe e tenha misericórdia de nós.



¬ Rev. Flávio Adair Torres Soares é Presbítero na Diocese do Recife; Pároco da Paróquia Anglicana Cristo Libertador, em Valentina, João Pessoa-PB, no Arcediagado PB/RN.