sábado, 11 de dezembro de 2010

Silio Boccanera entrevista Terry Eagleton

"A religião é uma força ideológia poderosa"

A Consultor Jurídico publica, nesta sexta-feira (10/12), a transcrição da entrevista do crítico literário e cultural irlndês Terry Eagleton, concedida ao jornalista Sílio Boccanera, do programa Milênio, da Globo News, no dia 10 de novembro, durante a Flip - Festa Literária de Paraty. O Milênio é um programa do canal de televisão por assinatura Globonews, que entrevista pensadores do mundo inteiro sobre os mais diversos assuntos. Vai ao ar às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30 de terça-feira, às 5h30 de quarta e às 7h05 de domingo.
Leia a seguir a entrevista:
Em debate para um auditório lotado durante a FLIP, a Festa Literária de Paraty, no Rio de Janeiro, o crítico cultural e literário britânico Terry Eagleton, mostrou que merece a fama de polemico e combativo. Protestou até contra o entrevistador, que citou algumas das críticas a ele. O convidado não gostou. Críticas como a do jornal britânico Sunday Times que classificou Eagleton de marxista, religioso, velho e punk. Ou o comentário da viúva do escritor Kingsley Amis em resposta às acusações de anti-semitismo e homofobia que Eagleton fez ao marido. Ela chamou Eagleton de uma mistura mortal de católico com marxista.
Ainda em Paraty, Eagleton achou tempo para desancar o ateísmo militante dos compatriotas Richard Dawkins e Christopher Hitchens, além de apontar uma suposta islamofobia dos premiados escritores Martin Amis e Salman Rushdie. Este é o famoso autor indiano perseguido por fundamentalistas islâmicos que na mesma FLIP chamou Eagleton de covarde e mentiroso. O acusado não respondeu.
Hoje com 67 anos, Eagleton já publicou mais de 40 livros sobre cultura, política e religião, vários deles traduzidos no Brasil, e centenas de artigos e ensaios sobre os assuntos mais variados. De nacionalismo a pós-modernismo, de Shakespeare a Oscar Wilde, Wittgenstein e Walter Benjamin. Seu próximo livro terá o título Por que Karl Marx estava certo. Ele hoje dá aulas nas universidades de Lancaster na Inglaterra, Notre Dame nos Estados Unidos e na Universidade da Irlanda. Conversamos com Eagleton em Paraty.
Terry Eagleton — Antes de mais nada, eu queria agradecer por essa introdução deveras sensacionalista, que me faz parecer mais um boxeador peso-pesado do que um intelectual. Tomara que vocês não estejam esperando que eu comece a pular em volta do palco, me pendurando no teto como um gorila, dada essa introdução, que poderíamos descrever como um tanto apelativa. Espero que sejamos intelectualmente sérios aqui.
Silio Boccanera — Pode deixar.
Terry Eagleton — E, por favor, não vamos nos limitar a um duelo de pesos pesados. 
Silio Boccanera — Tirando “religioso, velho e punk”, como foi descrito pelo Sunday Times, o senhor é, muitas vezes, classificado como um crítico literário e cultural marxista. Se aceitar essa descrição, o que isso faz do senhor?
Terry Eagleton — Vou responder à sua pergunta falando como... Eu queria falar rapidamente sobre esse debate sobre Deus. Você levantou a questão desses diversos conflitos. Prefiro não começar entrando direto no debate e perguntando quem acredita ou não em Deus. Eu queria me distanciar por um instante e dizer como é incrível que um debate sobre Deus esteja acontecendo. Por que Deus subitamente voltou ao debate numa era que se diz pós-religiosa, pós-metafísica, pós-moderna e, como alguns diriam, pós-histórica? O que está havendo? Por que todo mundo voltou a falar em Deus? Então, a primeira pergunta a se fazer é: “Por que esse debate está de volta, logo agora que Deus parece ter saído de cena, com certeza, já muito arrependido de um dia ter criado a mínima partícula de matéria, e muito mais por ter criado Donald Rumsfeld [secretário de Defesa dos Estados Unidos no governo de George W. Bush]?” Por que, subitamente, ele voltou a ser alvo de discussão? Obviamente, há diversas respostas para isso. Mas vou sugerir, rapidamente, uma: o 11 de Setembro. Estou me referindo, é claro, ao 11 de Setembro mais recente, não ao primeiro 11 de Setembro, que o povo deste continente conhece bem: o dia em que o governo dos EUA derrubou violentamente o governo democraticamente eleito de Salvador Allende no Chile, substituindo-o por um ditador abominável que acabou assassinando muito mais gente do que os atentados ao World Trade Center. O primeiro 11 de Setembro! Na verdade, houve um11 de setembro antes disso que pouco se comenta: o nascimento de Theodor Adorno, mas só os direitistas consideram isso uma catástrofe. Mas, deixando isso de lado e respondendo à sua pergunta, eu acho que um dos grandes motivos para Deus ter voltado ao centro do debate é o 11 de Setembro.
Silio Boccanera — Nos livros que o senhor escreve sobre religião, principalmente nos que critica Dawkins e Hitchens, o senhor expõe uma visão muito pessoal de Deus, uma visão diferente daquela que muitas pessoas têm de Deus. Como o senhor definiria esse conceito de Deus?
Terry Eagleton —
Não acho que eu tenha uma visão pessoal de Deus. Prefiro considerá-la uma visão tradicional. Acreditando ou não em Deus, nós temos a responsabilidade intelectual de entender direito o significado disso. Eu não critico Richard Dawkins por sua descrença em Deus. Milhões e milhões de pessoas não acreditam em Deus. O problema é que ele não faz idéia do que significa acreditar em Deus. Eu considero o Richardo Dawkins, um racionalista antiquado do século 19 que acredita que Deus é uma espécie de pseudocientista, que Deus é um rival da evolução. Acreditar em Deus não se trata disso. A doutrina da criação não tem nada a ver com a origem do mundo. Richard Dawkins não sabe disso. Ele não sabe, por exemplo, que o maior teólogo que já viveu, São Tomás de Aquino, achava bastante plausível o mundo não ter uma origem. São Tomás de Aquino pensava, acertadamente, que isso era uma questão para os cientistas. Não tinha nada a ver com teologia. A doutrina da criação não tem nada a ver com a origem do mundo, como crê, equivocadamente, Richard Dawkins. Se quiserem mesmo saber do que se trata, me procurem pessoalmente mais tarde que, por um preço bem em conta, eu conto para vocês. 
Silio Boccanera — No livro, o senhor critica a visão de Deus como criador de tudo, ou, como o senhor diz, como o “Grande Fabricante”. Mas a maioria acredita que Deus é isso.
Terry Eagleton —
A maioria acredita que o socialismo se resume a campos de concentração stalinistas. Muitas pessoas têm crenças com que não precisamos necessariamente concordar. A minha visão pessoal é... Por exemplo, Richard Dawkins acredita, sem exagero, que acreditar em Deus é o mesmo que acreditar em alienígenas, no Abominável Homem das Neves ou no Monstro do Lago Ness. Acreditar em Deus não tem nada a ver com isso! E não preciso acreditar em Deus para afirmar isso. É só observar as ricas tradições da teologia cristã, da teologia judaica, da teologia islâmica e tentar juntar os pedaços.
Silio Boccanera — O senhor colocaria o pensamento de outro entrevistado nosso, Chritopher Hitchens, na mesma linha? Há uma diferença de abordagem?
Terry Eagleton —
O que eu gosto na abordagem de Htichens sobre religião é a violência e a crueldade com que ele a trata. O Hitchens e eu fomos, há muito tempo, camaradas trotskistas, mas ele cresceu, ele amadureceu. Eu ia dizer que ficou sóbrio, mas talvez seja exagero. Enquanto isso, eu fiquei preso na minha perspectiva infantil, incapaz de aceitar a realidade. O que eu gosto na abordagem de Hitchens sobre religião é a falta de rodeios. Ele não diz de um jeito comedido e tolerante: “Se suas crenças são essas, eu aceito sem problema.” Ele diz que considera a religião repugnante. Bom, concordando ou não, isso é algo passível de argumentação. É mais fácil argumentar com Christopher Hitchens do que com o capelão da rainha. Ele não vai perguntar se você foi lavado no sangue do cordeiro, ele vai simplesmente lhe oferecer mais um licor. Hitchens e Dawkins acreditam, sem exagero, que as coisas, como um todo, estão melhorando. Eles admitem problemas pontuais, bolsões de miséria, opressão e infelicidade, mas, se não fosse esse preceito horrível chamado “religião”, se ela fosse retirada da equação, poderíamos marchar rumo a um novo iluminismo. Não consigo pensar em crença mais supersticiosa do que essa.
Silio Boccanera — Em seu livro Jesus Cristo – os Evangelhos, publicado aqui no Brasil, o senhor descreve a vida de Jesus Cristo. O senhor vê Jesus como um revolucionário, como Lênin ou Trotski o considerariam, como uma figura mística que teria sido esquecida se não fossem as reações dos líderes judeus e dos romanos, ou como o filho de Deus?
Terry Eagleton —
Eu posso tentar responder, mas quem quiser comprar esse livro baratíssimo e deveras interessante poderá descobrir por conta própria. Não fui eu que escrevi o livro. Ele se chama “Novo Testamento”. Foi escrito por outras pessoas há muito tempo. Eu escrevi que a idéia de Jesus como revolucionário, como foram Che Guevara ou Lênin, é totalmente anacrônica. Uma razão que, provavelmente, desmistifica Jesus como revolucionário, nesse sentido, é a sua crença no advento do fim da História. Não havia tempo para organizar urnas, partidos políticos e por aí vai. Jesus achava que a História estava chegando ao fim. Portanto, a política não era importante. Por outro lado, podemos entender “revolucionário”, que pode ter diversos sentidos, como alguém que aceita a natureza trágica da condição humana, ou seja alguém que aceita que é possível encarar corajosamente o fracasso, a ruína, a perda e a miséria, sem se transformar em pedra, e dizer: “Esta é a realidade da condição humana.” Para se obter a imagem ou o ícone da condição humana, é só observar um criminoso político crucificado, insultado e torturado, pois os romanos restringiam a crucificação a crimes políticos, e tentar refletir sobre isso. Essa seria a minha resposta a Christopher Hitchens e Richard Dawkins, e não um argumento abstrato ou teórico sobre a existência ou não de um ser supremo, como se estivéssemos falando do Abominável Homem da Neves. Mas como podemos interpretar isso? Como podemos interpretar a posição de que, somente através de um comprometimento obstinado com essa imagem de fracasso e ruína, que é o exato oposto do sonho americano, em todos os sentidos, poderíamos ter a chance de chegar a uma forma de vida nova e transfigurada? Falar sobre fé não significa falar sobre alguma questão intelectual, como a existência de um ser supremo, significa falar sobre alguém que, em meio a perplexidade e escuridão, se manteve comprometido, talvez sem saber por quê, com essa possibilidade de um amor transfigurador e um poder transfigurador. A nossa reação a isso me parece muito mais relevante para a política mundial atual do que uma afirmação intelectual sobre um ser supremo.
Silio Boccanera — Como teórico marxista autoproclamado, onde o senhor situa a expressão “o ópio do povo” de Marx?
Terry Eagleton — A
h, sim! Antes, eu gostaria de dizer que, no ano que vem, um livro baratíssimo e deveras interessante, no caso, escrito por mim, será lançado sobre Marx. Eu odeio livros com títulos provocativos, mas ele se chama “Why Marx Was Right” [Por Que Marx Estava Certo – no título em inglês, o autor faz um trocadilho, já que right serve tanto para dizer certo, como direita]. O propósito do livro... não é uma obra acadêmica. É para um público muito mais amplo. Eu pego dez dos argumentos mais comuns, mais batidos, contra Marx e, como dizem no críquete, rebato-os para fora do campo. Eu tento dar conta de cada argumento. As observações de Marx sobre religião são muito interessantes. Se pensarmos no atual radicalismo islâmico, a religião não é o ópio do povo, ela é o crack do povo. Essa frase é frequentemente mencionada fora de contexto. Alguém sabe o que Marx diz antes de “ópio do povo”? Ele diz: “A religião é o coração de um mundo sem coração. Ela é o gemido e o suspiro do oprimido. Ela é a alma de condições desalmadas. Ela é o ópio do povo.” É incrível como isso é citado fora de contexto. Eu concordo com Marx. A maioria das religiões... Aqui, eu concordo integralmente com Richard Dawkins e com meu velho amigo trotskista, Christopher Hitchens. A maioria das religiões se manifestou como uma forma perversa de opressão ideológica. É escandaloso que um documento como o Novo Testamento seja usado com esse intuito por ricos e poderosos, enquanto o Evangelho de Lucas, pelo menos, começa descrevendo a figura de uma jovem submissa e grávida: Maria, grávida de Jesus. Lucas põe na boca dela o que hoje sabemos ser um cântico zelote, o cântico dos judeus revolucionários e anti-romanos locais que o cristianismo conhece como “Canção de Maria” e que, segundo a tradição e a ortodoxia, quer dizer: “Conheceremos Deus por aquilo que Ele é quando virmos os famintos alimentados por dádivas e os ricos sendo expulsos de mãos vazias.” Gostaria de colocar essa questão a Richard Dawkins e Christopher Hitchens, pois é isso que Maria e Lucas identificam como Deus. Não tem nada a ver com o “ópio do povo”. Não sabemos por que Jesus foi crucificado. Talvez nem os evangelistas soubessem. Ele demonstram muita confusão a respeito. Quantos foram os julgamentos, por exemplo? Mas sabemos de uma coisa. É bem provável que ele tenha sido exterminado pela classe governante local, pelo sinédrio judeu, porque se temia que ele estava incitando uma revolução, o que traria a opressão do poder imperial romano sobre o povo judeu. Eu não acho que Jesus estava incitando uma revolução, mas aquela era a situação. E isso não tem nada a ver com o “ópio do povo”. 
Silio Boccanera — Ainda com relação ao “ópio do povo”, o senhor escreveu um artigo associando o “ópio do povo” ao futebol. O artigo saiu no jornal britânico Guardian. O senhor diz que “o futebol não é bom para quem busca mudanças sociais. Ele é o novo ópio do povo.” Já que o Brasil é louco por futebol, talvez possa elaborar um pouco mais.
Terry Eagleton —
Como estou no Brasil, eu retiro o que disse! Me perdoem. Me perdoem. Não me crucifiquem. Na verdade, não entendo nada de futebol. Mas, como sempre digo, a ignorância nunca me impediu de nada. Nunca deixe o desconhecimento impedi-los de fazer algo. Esse é o único conselho que eu tenho para dar. Podemos pensar na miríade de substitutos para a religião que existem na modernidade. Livrar-se da religião significa livrar-se de uma força ideológica muito poderosa. Na verdade, eu me arriscaria a dizer que essa é a forma mais poderosa e simbólica que a humanidade já testemunhou. Existe forma simbólica mais poderosa do que aquela que associa diretamente os detalhes do cotidiano de milhões de pessoas a uma verdade absoluta e transcendental? Não dá para competir com isso. Assim, quando a religião começa a fracassar na modernidade... É interessante ver como esse fracasso não se deve a ateus cabeludos como Richard Dawkins, que, na verdade, nem tem muito cabelo. O fracasso da religião está na própria modernidade. O capitalismo é inerentemente um modelo de vida descrente, secular, pragmático, racional e relativista, e, assim, ele tende a solapar, através de suas ações diárias, os modelos ideológicos, como a religião, ao mesmo tempo em que recorre a eles. Essa é uma contradição inerente às sociedades capitalistas. Mas o fracasso da religião precisa ser suprido com algo. Existiram diversas alternativas à religião no período moderno, sendo uma das mais interessantes e poderosas a cultura. Não me refiro à cultura no sentido de Balzac ou Beethoven, mas à cultura como uma forma de vida. Identidade, afinidade, aceitação, história, linguagem, símbolo. A cultura é o que faz as pessoas matarem. Querem uma definição de cultura? Hoje cultura é aquilo pelo que as pessoas morrem voluntariamente ou matam. A forma mais evidente disso, que é muito familiar neste continente, e muito familiar na minha terra, a Irlanda, é o nacionalismo. Se existiu uma religião moderna, para o bem ou para o mal, ele foi o nacionalismo. Mas mesmo o nacionalismo, num mundo globalizado, não consegue suprir a religião por si só. Precisamos de algo cerimonial, simbólico, ritualístico, que envolve milhões de pessoas, que tem tradição e história. E o que é melhor do que o futebol? O futebol é uma conspiração da classe dominante. A elite sentou em volta de uma mesa, numa sala livre de fumantes, e disse: “Como vamos mantê-los felizes, principalmente quando não estiverem trabalhando?” O lazer significa isso: o que fazer com as pessoas quando elas não estão trabalhando. E inventaram essa brilhante idéia chamada “futebol”, o que não entendo bem porque quase nunca vi. Mas eu sei disso.
Silio Boccanera — No seu livro de 2003, Depois da Teoria, publicado no Brasil, o senhor critica a cultura contemporânea e literária. O que há de errado na cultura literária contemporânea?
Terry Eagleton — Não acho que esse seja o tema principal do livro. 
Silio Boccanera — Está no livro.
Terry Eagleton — O tema principal é o que aconteceu com a teoria literária, com a teoria da cultura, porque há 20 ou 30 anos, ela ia muito bem e de repente parou. Acho interessantes as razões disso, como eu argumento no livro. Eu acho, por exemplo, que o declínio da teoria da cultura aconteceu paralelamente ao declínio da esquerda. Os melhores anos da teoria da cultura, o final dos anos 60 até o começo dos anos 80, foram os anos em que a esquerda ia muito bem. Acho que há uma ligação entre as teorias ambiciosas, o raciocínio ambicioso, e o sucesso da esquerda. Quando a esquerda parou de avançar tanto, a teoria começou a declinar. Então, o estado da cultura contemporânea literária não me preocupa tanto quanto isso. Porém, devo dizer uma coisa sobre a cultura contemporânea literária na Grã-Bretanha. Acho muito interessante e deprimente o fato de que as pessoas que foram mais veementes em sua reação apavorada ao islamismo radical, pessoas como Martin Amis, Christopher Hitchens, e em certa medida, mas menos em pânico, Ian McEwan...Essas são as pessoas que deveriam ser os guardiões da chama liberal. As mesmas pessoas que execraram muçulmanos comuns, inocentes, os denegriram com o rótulo do terrorismo, são as pessoas que confessam ser os intelectuais liberais britânicos. Eu incluiria Salman Rushdie nessa lista. Acho que há uma terrível ironia aí, pois as mesmas pessoas que deveriam defender a tolerância, a pluralidade e a diversidade deram o primeiro golpe, digamos assim. Não me entendam mal, o islamismo radical é realmente um fenômeno repugnante. São pessoas que explodem crianças em nome de Alá, e não há como defender isso. Mas quem excedeu o limite nesse assunto foram os liberais cultos de Londres. 
Silio Boccanera — Salman Rushdie esteve aqui e disse que isso é uma distorção do ponto de vista dele. Mencionou especificamente o seu nome e disse que o senhor mente sobre isso. Foram palavras dele. Ele disse que faz claramente a mesma distinção que o senhor fez entre o islamismo radical e o islamismo em geral. Porque o senhor critica Rushdie e esses outros autores por criticarem demais o islamismo em geral, como o senhor disse, e não apenas os terroristas. Ele disse que o senhor distorce a visão dele. O que acha disso?
Terry Eagleton — Bem, eu acho que há, é claro, diferenças individuais no grupo que mencionei, mas o que me alarma é que a linha que separa a crítica perfeitamente justificável ao islamismo radical e a “islamofobia” tornou-se tênue em alguns casos e foi ultrapassada repetidamente. Principalmente por Martin Amis, por exemplo, e também por Christopher Hitchens. Hitchens e Amis odeiam o islamismo porque odeiam todo tipo de religião. Eles têm direito a esse ponto de vista intelectual, mas não têm direito de confundir os milhões de muçulmanos do mundo com uma minoria especialmente violenta. Também devemos nos lembrar, ao falarmos de fundamentalismo, que há uma variante texana assim como há uma variante talibã. E me parece extraordinário essas pessoas não mencionarem isso. Elas não mencionam como a própria civilização ocidental está permeada de ponta a ponta por formas de fundamentalismo evangélico. Não preciso falar disso no Brasil, país que está muito ciente disso. De alguma forma, reserva-se o liberalismo para o Ocidente e o extremismo para o Oriente. Em parte, talvez seja porque a URSS não existe mais, então as pessoas precisam de outro bicho-papão. Mas o eixo entre fundamentalismo e liberalismo não pode ser mapeado pelo eixo Ocidente-Oriente, eu diria. Ele o atravessa completamente. Eu gostaria de ouvir gente como Salman Rushdie e Martin Amis dizer isso com mais veemência do que dizem em vez de falar como se a tradição do Ocidente estivesse totalmente livre da barbárie e o bárbaro sempre fosse o outro. O tipo de... A convicção liberal progressista, melhor exemplificada por Dawkins, mas que Hitchens compartilha, eu acho, diz que antes havia barbárie e agora há civilização, e o perigo abominável é podermos sempre ter uma recaída. Essa é a convicção liberal progressista padrão. É totalmente equivocada. Uma das boas razões para ser marxista, além do prazer de irritar as pessoas, é que os marxistas sempre afirmaram que a civilização e barbárie são dois lados da mesma moeda: Eles não são consecutivos, barbárie depois civilização, são sincrônicos. Em toda civilização há miséria, exploração, infelicidade etc. Eu não conheço nenhuma crença, exceto o marxismo, que diz, ao mesmo tempo, que a modernidade tem sido uma emancipação longa e escravizante para milhares de pessoas. Democracia, feminismo, republicanismo, democracia... Foi uma emancipação dos terrores dos antigos regimes e tem sido um pesadelo longo e indescritível. O marxismo une... Ele era chamado de “dialética”, quando os homens ainda usavam costeletas e jaquetas jeans. O marxismo tenta afirmá-las simultaneamente. Alguém que vê a civilização simplesmente como uma história de progresso triunfal, como acho que Dawkins vê, ou a vê simplesmente como a degeneração de um passado ideal não percebe essa dialética essencial.
Silio Boccanera — Combinando Marx, teoria e crítica literária, sua área, como o senhor acha que o marxismo, como ferramenta, pode ser mais útil para entender a literatura?
Terry Eagleton — Há uma caricatura da crítica literária marxista... Uma caricatura compreensível, porque muitas críticas são assim. Segundo ela, abrimos um romance e contamos o número de trabalhadores ou vemos se há minas ou fábricas. É como a caricatura vulgar da crítica literária freudiana, em que se conta o número de símbolos fálicos em cada obra. György Lukács, que talvez seja o maior crítico literário marxista, certa vez disse que o mais importante em uma obra literária, do ponto de vista político, histórico e ideológico, é a forma, a forma artística. Se eu fosse citar um crítico literário atual que faz isso magistralmente, porque, de certa forma, toda sua obra é sobre isso, eu diria que é Fredric Jameson, nos Estados Unidos. Jameson constantemente tenta demonstrar como a História reside no texto, nos seus detalhes linguísticos formais mais delicados e minúsculos. Acho que há uma tradição ilustre da crítica literária marxista, que inclui [Walter] Benjamin e [Theodore] Adorno, que tenta fazer exatamente isso. 
Silio Boccanera — Por obrigação, o senhor precisa ler muito, eu espero. O que o senhor leu recentemente que acha que vale a pena ler, que interessaria à platéia?
Terry Eagleton — Eu poderia citar vários livros meus.
Silio Boccanera — Eu devia ter pedido para não considerá-los.
Terry Eagleton — Então há outros livros? Perdão. Por isso eu escrevo tanto, quando quero ler um livro, eu escrevo um. Sempre achei muito invasivo ler o livro de outras pessoas, você se intromete na vida deles de certa forma. É uma pergunta muito difícil. Para começar, falo isso para agradar vocês de forma escancarada, eu preciso ler mais literatura brasileira. Li muito pouca literatura sul-americana em geral. Infelizmente, a única situação pela qual passei na América Latina foi ter sido preso pela polícia na fronteira do México, há muitos anos, quando eu lecionava com Jameson em San Diego. Se for a “pergunta da ilha deserta”, não tenho dúvida. “Qual livro eu gostaria de levar para uma ilha deserta?” Não há dúvida. É um dos melhores romances já escritos. Se alguém quiser saber qual é, fale comigo mais tarde, a sós, e, por uma quantia modesta... Não. Tudo bem. É Proust. O que eu sempre faço – fiz isso na longa viagem para cá – é pegar um volume de Em Busca do Tempo Perdido e mergulhar nele, ler o livro. Eu acho uma experiência delirante. Apesar de Proust ser considerado um autor muito difícil, ele é incrivelmente engraçado, em primeiro lugar. E o estilo dele é esplendido. Voltando um pouco à pergunta sobre a crítica literária marxista. A crítica literária marxista deve ligar a História à obra literária. Proust é um ótimo exemplo disso porque eu tenho uma teoria, não a espalhe: a extensão enorme das frases de Proust é resultado da Comuna de Paris de 1871. Isso deve parecer uma teoria pouco sensata para um crítico defender. A mãe de Proust estava grávida dele durante a Comuna de Paris e, como boa burguesa francesa, ela tinha medo de perder seus bens, sua vida, seu filho... Existe a teoria de que Proust começou a ter sua famosa asma por causa dessa experiência intrauterina. E a minha teoria é que a enorme extensão das frases de Proust é uma compensação inconsciente por sua falta de ar. É completamente impossível falar uma frase de Proust sem um tanque de oxigênio nas costas.
Silio Boccanera — A viúva do escritor Kingsley Amis disse que o senhor é “uma combinação letal de marxista e católico.” Tenho curiosidade de saber se essa combinação já o levou à Teoria da Libertação, que é muito forte na América Latina, ou, ao menos, era.
Terry Eagleton — Sim. Um dos meus maiores interesses na América Latina é isso. Nos anos 50, quando eu estudava em Cambridge, eu me associei ao que era chamado de movimento da esquerda católica na Grã-Bretanha e Irlanda. Um dos problemas desse movimento foi que nos organizamos pouco antes da Teoria da Libertação aparecer aqui. Nossos pensamentos precisavam se concretizar. Teriam se concretizado mais, eu acho, se tivéssemos nos organizado depois da Teoria da Libertação. Mas, com certeza, fomos muito influenciados por ela. Aliás, você falou que eu sou marxista e católico. Não sei se eu diria que sou católico. Quero dizer, eu reluto muito em me associar formalmente a essa instituição extremamente patriarcal opressora. Assim que o papa puser os pés na Grã-Bretanha, eu pretendo prendê-lo. Sempre achei interessante a questão da infalibilidade papal. A declaração do papa da sua própria infalibilidade foi infalível? Retroativamente, até que ponto ela vai? Se ela não foi infalível, então não é preciso acreditar nela. Para mim, a palavra “católico” sugere tudo isso. Porém, ao mesmo tempo, eu diria que tive uma criação católica que, simplesmente por acaso, foi muito inteligente. Quando eu cheguei ao ponto, aos 18 anos, em que qualquer pessoa normal, civilizada e decente teria rejeitado esse negócio, eu encontrei uma versão do cristianismo que fazia sentido político, ético e cultural para mim e, por isso, era mais difícil de abandonar. Ainda era possível abandoná-la, mas eu teria que... Os custos seriam altos. Minha objeção a vários tipos de ateísmo não é a falta de fé em Deus, mas é o fato de a maioria dos ateus pagar um preço baixo pelo seu ateísmo. O que eu quero dizer com isso é que eles nem se confrontaram com uma versão do cristianismo que custaria caro abandonar. Eu moro na Irlanda, e quase todo intelectual irlandês, homem ou mulher, talvez aconteça o mesmo aqui, é ateu de carteirinha, uma coisa desagradável. Mas, como sempre digo a eles, não há problema nisso. O problema é pagar um preço tão baixo por isso. Você precisa lutar para abandonar algo que tem valor. O sacrifício, uma ideia pouco popular entre os pós-modernistas de hoje... O sacrifício é o abandono de algo que você acha extremamente valioso. Senão não seria sacrifício. O celibato é um elogio à sexualidade – se for compreendido corretamente – porque ele diz que essa dádiva, essa capacidade tão preciosa, é algo que você rejeita deliberadamente, por certas razões. Por acaso, é claro, na Igreja Católica, não é o celibato que é sacramental, mas o casamento. São Paulo deixa bem claro que a união sexual de duas pessoas é que é o sinal do amor de Deus. Não é o celibato, mas o casamento que é sacramental. Mas você tem que... Se você rejeita uma crença, o cristianismo, o que quer que seja, isso precisa ter algum significado. O problema da maioria dos ateus hoje é que isso não tem muito significado. Você herda sua fé assim como herda a cor dos olhos etc. Uma das razões disso – para concluir, peço desculpas por demorar tanto tempo -, é uma afirmação que fiz antes: eu acho que as civilizações capitalistas modernas são apenas lugares inerentemente sem fé. O que eu quero dizer com isso é que o capitalismo não depende das suas crenças para sobreviver ou para se reproduzir. O Estado capitalista não está nem aí para o que você acredita desde que sua crença não o enfraqueça ou que ela não o faça interferir nas crenças dos outros. É isso que chamamos de “liberalismo”. Uma doutrina muito honrada. O que pode afetá-lo não é a fé que mantém o sistema funcionando. É algo mais cruel, material e egoísta. Quando esse sistema se encontra cara a cara com o inimigo, o islã radical, que não tem absolutamente nenhum tipo de problema com suas fundações, com suas crenças ou suas realidades transcendentais, então se vê preso numa crise interna. Isso, para mim, é um fato tão importante quanto mal explorado da tão aclamada “Guerra ao Terror”. O islã radical confronta o ocidente com aquilo que já foi a sua grande necessidade de crença e sua própria incapacidade crônica de crer. O resultado é que o mundo está tendendo à divisão entre aqueles que acreditam muito e aqueles que acreditam pouco. Entre os evangélicos fundamentalistas de um lado e, você sabe, do outro, pessoas que não acreditam em nada mais do que seus extratos bancários e suas crianças. O mais interessante disso tudo é que cada uma dessas partes empurra a outra em direção a uma versão extremada de si. Quanto mais sem raízes, cosmopolita, secular e céticas as civilizações se tornam, mais os patriotas e os fundamentalistas se agarram a essa imagem tão limitada de caipira. Quanto mais eles seguem nessa direção, mais a outra parte reage da mesma forma. Estamos presos, nesse momento, numa espécie de dialética circular e congelada, na qual cremos muito em muito poucas coisas. Mas há esperança pois, nesse intervalo, pessoas como eu, que estão no meio do caminho, podem influenciar aqueles que não creem em muito e aqueles que não creem em pouco... Estou sendo irônico, ok? 
Silio Boccanera — Mas o senhor diz, por exemplo: “Deus sustenta as coisas por Seu amor e fez o mundo simplesmente por amor e deleite.” O que isso significa?
Terry Eagleton — Isso é como citar uma frase de “Moby Dick”, de Shakespeare, de Keats ou de Neruda e perguntar o que significa. 
Silio Boccanera — O conceito expresso no livro...
Terry Eagleton — Vou tentar responder à pergunta. Não se pode destacar uma passagem dessas sem um contexto, sem uma cultura, sem uma história, e perguntar o que significa. Esse é o tipo de erro racionalista que Richard Dawkins cometeria. Aliás, eu gostaria de dizer que tenho grande admiração por sua incrível capacidade de comunicação da Ciência e, além disso, por sua corajosa campanha contra as opressões odiosas provocadas pela religião hoje. Ainda assim, Richard Dawkins tem uma visão nada tradicional, uma visão muito racionalista do significado. O filósofo Alasdair MacIntyre afirmou certa vez que “o Deus rejeitado nos séculos 19 e 20 foi inventado no século 17”. Ele não tem nada a ver com o Deus de Abraão, Isaac e Jacó.
Silio Boccanera — Um dos argumentos que Dawkins expôs aqui, ano passado, foi que as crenças religiosas são baseadas, em grande parte nas circunstâncias do nascimento. Ninguém nasce católico, muçulmano ou judeu. As pessoas têm essas condições determinadas pela família. E uma das críticas feitas por ele é que não se pode chamar uma criança de católica porque a criança não teve a oportunidade de pensar a respeito e tomar uma decisão. Então, até que ponto o senhor acha que a maioria das pessoas tem crenças religiosas simplesmente devido ao ambiente em que nasceram e à doutrinação?
Terry Eagleton — Não há dúvida.
Silio Boccanera — O senhor considera que religião e resultado de doutrinação?
Terry Eagleton — A religião é geralmente guiada pelo ambiente familiar. Apesar de muitas pessoas, infelizmente, não refletirem criticamente sobre suas crenças. Do mesmo modo, imagino que Richard Dawkins tenha nascido numa família ateia e racionalista. Espero que ele tenha conseguido refletir criticamente sobre isso e tenha se perguntado se esse racionalismo é conseqüência de doutrinação ou é algo com que ele se compromete genuinamente. Um dos problemas de Dawkins... Me desculpem por insistir nessa pessoa em particular. O debate é muito mais amplo. O Dawkins realmente pensa que toda fé é cega. Richard Dawkins não percebe que, como qualquer ser humano, ele tem muitas crenças. Sem dúvida, não são crenças religiosas, mas Richard Dawkins tem as suas verdades. Ele se envolve com muitas coisas, como qualquer outra pessoa. E não é algo insensato de se fazer. O Dawkins comete o erro herético – a heresia conhecida como “fideísmo” – de achar que fé e razão estão completamente separadas. É como dizer que amor e razão são completamente separados. Como se estar apaixonado por alguém nos impossibilitasse de explicar a causa da paixão e de comunicar aos outros que estamos apaixonados, o que não é verdade. Então, eu concordo. Infelizmente, a verdade é que a maioria de nós – budistas, católicos, ateus, racionalistas – adere automaticamente à crença familiar, mas alguns tentam adotar um distanciamento crítico.
Silio Boccanera — No seu livro de 2002, Marxism and Literary Theory, ainda sem tradução no Brasil, o senhor diz: “O que morreu na URRS era marxista apenas no mesmo sentido em que a Inquisição era cristã.” Então o senhor não perdeu a sua fé? Em Marx, não em Deus.
Terry Eagleton — Sabe... O socialismo sobreviveu a todo tipo de crises e passa por uma crise muita séria atualmente. Acho que um dos motivos de ele ter sobrevivido é por ser uma ideia brilhante. E... Você sabe... Quando algumas pessoas, com muita presunção, disseram que o marxismo estava acabado, morto, não tinha nada a contribuir ao mundo moderno, houve uma imensa crise do capitalismo, e o marxismo não é nada além de uma análise das contradições e crises internas do capitalismo. Não estou dizendo que todo mundo deva ser marxista. Eu começo esse livro incrivelmente barato sobre Marx dizendo que tenho muitas críticas a Marx. Não conheço um freudiano que aceite todas as palavras de Freud. Não conheço um darwinista, fora Richard Dawkins... E com certeza não sou um marxista que acredita em tudo que Marx disse, incluindo que o colonialismo na Índia foi algo maravilhoso. Não é uma verdade incontestável. É claro que não. Então, quando você pergunta se eu não perdi a fé... Primeiro, todo mundo tem fé em alguma coisa. Fé no sentido de um compromisso que define o self, quem você é, é indispensável à identidade humana. Pode não ser fé no marxismo ou no cristianismo, mas, com certeza, é fé em alguma coisa. Fé é algo de que você descobre que, no fim das contas, não pode escapar. Por mais que você queira, por mais inconveniente que seja, mesmo que você esteja sendo crucificado, você literalmente não pode fugir dela. E, quanto a isso, eu acho que, provavelmente, se você pensar bem todo mundo tem algum tipo de fé.
Silio Boccanera — Dentro desse contexto de fé, que foi o que eu usei, claro, o senhor acredita na idéia marxista de uma sociedade sem classes? “A cada um, de acordo com suas necessidade...”
Terry Eagleton — Acredito que uma boa razão para ser marxista é muito simples e demonstra bom senso: há suficiente riqueza no mundo, não para criar uma utopia, pois Marx não estava nem um pouco interessado em utopia... Esse é outro mito vulgar, pois Marx começou sua obra combatendo o pensamento utópico. Marx se recusou repetidamente a prever o futuro, mas ele pensava, e acho que demonstrava bom senso nisso, que havia suficiente riqueza acumulada, por causa da longa história do capitalismo, para tornar as coisas muito mais fáceis para uma grande maioria das pessoas. Não para criar perfeição. Os materialistas, por definição, não se interessam pela perfeição. O material não é perfeito. Se você perguntou, ao falar de “sociedades sem classe”, se teríamos recursos para libertar as pessoas de forma de trabalho degradante e exploradoras, em grande escala, acho que não há dúvida disso. O problema não é recurso material, mas vontade política. E acho que a originalidade de Marx... Há pouca coisa original em Marx, me permita provar isso. O próprio Marx disse que não inventou o conceito de classe. Disse que o conceito é muito mais antigo. Ele não inventou nem o conceito de luta de classes. Ele não inventou a idéia de comunismo, que é muito antiga. Ele não inventou a idéia de revolução, que, no mínimo, remonta à Revolução Francesa. Ele não inventou a idéia de materialismo e não inventou a idéia de determinismo ecnomico. Até Freud, que não simpatizava com o marxismo, acreditava que a maior motivação da sociedade humana era econômica, a necessidade de trabalhar. Freud pensava que, sem essa necessidade, ficaríamos deitados à toa o dia todo, em interessantes posições de deleite, vestindo longas vestes de cor roxa, tocando cítara e recitando Homero uns para os outros. Por isso, Oscar Wilde era socialista. Oscar Wilde era socialista porque, como qualquer pessoa racional, ele não gostava de ter que trabalhar. É a única boa razão para ser socialista se você não gosta de trabalhar. Você não participa dessa ridícula glorificação capitalista do trabalho, da disciplina etc. Marx viu que havia uma grande chance, dada a existência do capitalismo... Ele não existia na Rússia de 1917. Dada a acumulação de riqueza do capitalismo, Marx achava que havia boa chance de libertar muitas pessoas de funções degradantes. Mesmo que elas não ficassem à toa o dia todo, recitando poesia, elas poderiam ser muito mais felizes. Marx não acreditava no trabalho, acreditava em lazer. Ele era apaixonadamente dedicado à idéia de autorrealização individual. Se você quiser saber o que é moralidade para Marx... Uma das coisas mais interessantes em Marx é que ele entende que qualquer discussão sobre moralidade não pode começar questionando dever, obrigação, responsabilidade etc. Essas coisas têm o seu lugar, mas elas devem tomar lugar em um contexto maior e mais amplo, a questão que Marx chamou de “autorrealização do indivíduo”. Marx queria uma sociedade em que indivíduos pudessem ser eles mesmo, desenvolver-se, realizar-se e expressar-se de forma muito mais rica, diversificada e livre do que é possível em uma sociedade de classes. Acho que esse é um objetivo muito nobre, que merece ser almejado.
Silio Boccanera — Tenho aqui algumas perguntas da platéia. Jonas Stevens quer saber se o estudo literário teve alguma influência na sua opinião sobre a fé e religião.
Terry Eagleton — Opinião sobre o quê?
Silio Boccanera — A fé e a religião. A influência da literatura, do que você leu.
Terry Eagleton — Não diretamente, mas uma coisa que me interessa na ficção, e na literatura também, e na literatura também, eu suponho, é que elas são verdades, mas verdades corporificadas, verdade encarnadas. Não são verdade abstratas, proposicionais, mas verdade no sentido de experiências vividas. A literatura não tem a ver só com o significado da experiência, mas com a experiência do significado. Se você quisesse definir poesia, não seria muito errado dizer que ela é o significado como experiência, o significado com algo sensorial, o significado encarnado. O poema é um tipo de corpo, o lugar em que o significado e o corpóreo, a materialidade, se unem. A materialidade da linguagem e o seu significado. O somático e a semântica, digamos, se unem na literatura. E eu acho, apesar de eu não ter certeza absoluta, pois preciso refletir mais... Acho que isso tem implicações teológicas porque a teologia se preocupa com o corpo como linguagem, como uma forma de presença, o corpo como verbo, o corpo como comunicação. Um sacramento é um sinal de caráter performativo, um sina que realiza algo. Em certo sentido, isso também é válido para o que chamamos de literatura. Então estou interessado em um sentido um tanto esotérico, em relações desse tipo entre a teologia e a idéia da literatura. Não tanto como certas obras literárias influenciaram minha crença religiosa, mas a própria ideia de literatura.

Fonte: http://www.conjur.com.br/2010-dez-10/entrevista-terry-eagleton-escritor-critico-literario-britanico

Mas, como assim espertinho?

Na Paraíba, homem move ação judicial contra o Papa e exige pagamento de R$ 1 bi

O autor acusa o Bento XVI de se omitir perante as denúncias de pedofilia na Igreja Católica e pede que ele seja condenado a pagar idenização por dano moral

Da Redação do pe360graus.com
A Justiça Federal da Paraíba registrou uma ação, no mínimo, inusitada. Luiz Carlos Barbosa Ângelo está movendo uma ação na 1ª Vara contra o Papa Bento XVI. Na petição, assinada pelo advogado Gilvan Lopes Farias, Luiz Carlos acusa o Papa de se omitir perante as denúncias de pedofilia na Igreja Católica e pede que o cardeal seja condenado a pagar o valor de R$ 1 bilhão por dano moral.

Luiz Carlos diz que parte desse dinheiro será doada para algumas instituição filantrópicas carentes no mundo. A ação está aguardando decisão do juiz federal João Bosco Medeiros de Sousa, titular da 1ª Vara.


Fonte: pe360graus

domingo, 15 de agosto de 2010

Protestantismo na Mídia Revista Época de 07 de Agosto de 2010

A Nova Reforma Protestante

Inspirado no cristianismo primitivo e conectado à internet, um grupo crescente de religiosos critica a corrupção neopentecostal e tenta recriar o protestantismo à brasileira.
Ricardo Alexandre

Rani Rosique não é apóstolo, bispo, presbítero nem pastor. É apenas um cirurgião geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rondônia. No alpendre da casa de uma amiga professora, ele se prepara para falar. Cercado por conhecidos, vizinhos e parentes da anfitriã, por 15 minutos Rosique conversa sobre o salmo primeiro ("Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios"). Depois, o grupo de umas 15 pessoas ora pela última vez - como já havia orado e cantado por cerca de meia hora antes - e então parte para o tradicional chá com bolachas, regado a conversa animada e íntima.

Desde que se converteu ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia em 1969, Rosique pratica sua fé assim, em pequenos grupos de oração, comunhão e estudo da Bíblia. Com o passar do tempo, esses grupos cresceram e se multiplicaram. Hoje, são 262 espalhados por Ariquemes, reunindo cerca de 2.500 pessoas, organizadas por 11 "supervisores", Rosique entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com uma única característica comum: são crentes mais experientes.

Apesar de jamais ter participado de uma igreja nos moldes tradicionais, Rosique é hoje uma referência entre líderes religiosos de todo o Brasil, mesmo os mais tradicionais. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã, vindos de igrejas que há 20 anos não lhe responderiam um telefonema. Ele pode ser visto como um "símbolo" do período de transição que a igreja evangélica brasileira atravessa. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com o Divino muito diferente daquela divulgada nos horários pagos da TV.

Estima-se que haja cerca de 46 milhões de evangélicos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando havia menos de 3 milhões de fiéis espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como históricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na década de 1960, a hegemonia passou para as mãos dos pentecostais, que davam ênfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explosão numérica evangélica deu-se na década de 1980, com o surgimento das denominações neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a "teologia da prosperidade" (leia o quadro na última pág.). Há quem aposte que até 2020 metade dos brasileiros professará à fé evangélica.

Dentro do próprio meio, levantam-se vozes críticas a esse crescimento. Segundo elas, esse modelo de igreja, que prospera em meio a acusações de evasão de divisas, tráfico de armas e formação de quadrilha, tem sido mais influenciado pela sociedade de consumo que pelos ensinamentos da Bíblia. "O movimento evangélico está visceralmente em colapso", afirma o pastor Ricardo Gondim, da igreja Betesda, autor de livros como Eu creio, mas tenho dúvidas: a graça de Deus e nossas frágeis certezas (Editora Ultimato). "Estamos vivendo um momento de mudança de paradigmas. Ainda não temos as respostas, mas as inquietações estão postas, talvez para ser respondidas somente no futuro."

Nos Estados Unidos, a reinvenção da igreja evangélica está em curso há tempos. A igreja Willow Creek de Chicago trabalhava sob o mote de ser "uma igreja para quem não gosta de igreja" desde o início dos anos 1970. Em São Paulo, 20 anos depois, o pastor Ed René Kivitz adotou o lema para sua Igreja Batista, no bairro da Água Branca - e a ele adicionou o complemento "e uma igreja para pessoas de quem a igreja não costuma gostar". Kivitz é atualmente um dos mais discutidos pensadores do movimento protestante no Brasil e um dos principais críticos da"religiosidade institucionalizada". Durante seu pronunciamento num evento para líderes religiosos no final de 2009, Kivitz afirmou: "Esta igreja que está na mídia está morrendo pela boca, então que morra. Meu compromisso é com a multidão agonizante, e não com esta igreja evangélica brasileira."
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Essa espécie de "nova reforma protestante" não é um movimento coordenado ou orquestrado por alguma liderança central. Ela é resultado de manifestações espontâneas, que mantêm a diversidade entre as várias diferenças teológicas, culturais e denominacionais de seus ideólogos. Mas alguns pontos são comuns. O maior deles é a busca pelo papel reservado à religião cristã no mundo atual. Um desafio não muito diferente do que se impõe a bancos, escolas, sistemas políticos e todas as instituições que vieram da modernidade com a credibilidade arranhada. "As instituições estão todas sub judice", diz o teólogo Ricardo Quadros Gouveia, professor da Universidade Mackenzie de São Paulo e pastor da Igreja Presbiteriana do Bairro do Limão. "Ninguém tem dúvida de que espiritualidade é uma coisa boa ou que educação é uma coisa boa, mas as instituições que as representam estão sob suspeita."

Uma das saídas propostas por esses pensadores é despir tanto quanto possível os ensinamentos cristãos de todo aparato institucional. Segundo eles, a igreja protestante (ao menos sua face mais espalhafatosa e conhecida) chegou ao novo milênio tão encharcada de dogmas, tradicionalismos, corrupção e misticismo quanto a Igreja Católica que Martinho Lutero tentou reformar no século XVI. "Acabamos nos perdendo no linguajar 'evangeliquês', no moralismo, no formalismo, e deixamos de oferecer respostas para nossa sociedade", afirma o pastor Miguel Uchôa, da Paróquia Anglicana Espírito Santo, em Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife. "É difícil para qualquer pessoa esclarecida conviver com tanto formalismo e tão pouco conteúdo."

Uchôa lidera a maior comunidade anglicana da América Latina. Seu trabalho é reconhecido por toda a cúpula da denominação como um dos mais dinâmicos do país. Ele é um dos grandes entusiastas do movimento inglês Fresh Expressions, cujo mote é "uma igreja mutante para um mundo mutante". Seu trabalho é orientar grupos cristãos que se reúnem em cafés, museus, praias ou pistas de skate. De maneira genérica, esses grupos são chamados de "igreja emergente" desde o final da década de 1990. "O importante não é a forma", afirma Uchôa. "É buscar a essência da espiritualidade cristã, que acabou diluída ao longo dos anos, porque as formas e hierarquias passaram a ser usadas para manipular pessoas. É contra isso que estamos nos levantando."

No meio dessa busca pela essência da fé cristã, muitas das práticas e discursos que eram característica dos evangélicos começaram a ser considerados dispensáveis. Às vezes, até condenáveis (leia o quadro na última pág.). Em Campinas, no interior de São Paulo, ocorre uma das experiências mais interessantes de recriação de estruturas entre as denominações históricas. A Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera não tem um templo. Seus frequentadores se reúnem em dois salões anexos a grandes condomínios da cidade e em casas ao longo da semana. Aboliram a entrega de dízimos e as ofertas da liturgia. Os interessados em contribuir devem procurar a secretaria e fazê-lo por depósito bancário - e esperar em casa um relatório de gastos. Os sermões são chamados, apropriadamente, de "palestras" e são ministrados com recursos multimídias por um palestrante sentado em um banquinho atrás de um MacBook. A meditação bíblica dominical é comumente ilustrada por uma crônica de Luis Fernando Verissimo ou uma música de Chico Buarque de Hollanda.

"Os seminários teológicos formam ministros para um Brasil rural em que os trabalhos são de carteira assinada, as famílias são papai, mamãe, filhinhos e os pastores são pessoas respeitadas", diz Ricardo Agreste, pastor da Comunidade e autor dos livros Igreja? Tô fora e A jornada (ambos lançados pela Editora Socep). "O risco disso é passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais nos faz. Há muita gente séria, claro, dizendo verdades bíblicas, mas presas a um formato ultrapassado."

Outro ponto em comum entre esses questionadores é o rompimento declarado com a face mais visível dos protestantes brasileiros: os neopentecostais. "É lisonjeador saber que atraímos gente com formação universitária e que nos consideram 'pensadores'", afirma Ricardo Agreste. "O grande problema dos evangélicos brasileiros não é de inteligência, é de ética e honestidade." Segundo ele, a velha discussão doutrinária foi substituída por outra. "Não é mais uma questão de pensar de formas diferentes a espiritualidade cristã", diz. "Trata-se de entender que há gente usando vocabulário e elementos de prática cristã para ganhar dinheiro e manipular pessoas."

Esse rompimento da cordialidade entre os evangélicos históricos e os neopentecostais veio a público na forma de livros e artigos. A jornalista (evangélica) Marília Camargo César publicou no final de 2008 o livro Feridos em nome de Deus (Editora Mundo Cristão), sobre fiéis decepcionados com a religião por causa de abusos de pastores. O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, publicou O que estão fazendo com a Igreja: ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro (Mundo Cristão), retrato desolador de uma geração cindida entre o liberalismo teológico, os truques de marketing, o culto à personalidade e o esquerdismo político. Em um recente artigo, o presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas, João Flavio Martinez, definiu como "macumba para evangélico" as práticas místicas da Igreja Universal do Reino de Deus, como banho de descarrego e sabonete com extrato de arruda.

Tais críticas, até pouco tempo atrás, ficavam restritas aos bastidores teológicos e às discussões internas nas igrejas. Livros mais antigos - como Supercrentes, Evangélicos em crise, Como ser cristão sem ser religioso e O evangelho maltrapilho (todos da editora Mundo Cristão) - eram experiências isoladas, às vezes recebidos pelos fiéis como desagregadores. "Parece que a sociedade se fartou de tanto escândalo e passou a dar ouvidos a quem já levantava essas questões há tempos", diz Mark Carpenter, diretor-geral da Mundo Cristão.

O pastor Kivitz – que publicou pela Mundo Cristão seus livros Outra espiritualidade e O livro mais mal-humorado da Bíblia – distingue essa crítica interna daquela feita pela mídia tradicional aos neopentecostais "A mídia trata os evangélicos como um fenômeno social e cultural. Para fazer uma crítica assim, basta ter um pouco de bom-senso. Essa crítica o (programa) CQC já faz, porque essa igreja é mesmo um escracho", diz ele. "Eu faço uma crítica diferente, visceral, passional, porque eu sou evangélico. E não sou isso que está na televisão, nas páginas policiais dos jornais. A gente fica sem dormir, a gente sofre e chora esse fenômeno religioso que pretende ser rotulado de cristianismo."

A necessidade de se distinguir dos neopentecostais também levou essas igrejas a reconsiderar uma série de práticas e até seu vocabulário. Pastores e "leigos" passam a ocupar o mesmo nível hierárquico, e não há espaço para "ungidos" em especial. Grandes e imponentes catedrais e "cultos shows" dão lugar a reuniões informais, em pequenos grupos, nas casas, onde os líderes podem ser questionados, e as relações são mais próximas. O vocabulário herdado da teologia triunfalista do Antigo Testamento (vitória, vingança, peleja, guerra, maldição) é reconsiderado. Para superar o desgaste dos termos, algumas igrejas preferem ser chamadas de "comunidades", os cultos são anunciados como "reuniões" ou "celebrações" e até a palavra "evangélico" tem sido preterida em favor de "cristão" - o termo mais radical. Nem todo mundo concorda, evidentemente. "Eles (os neopentecostais) é que não deveriam ser chamados de evangélicos", afirma o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, da Diocese do Recife. "Eles é que não têm laços históricos, teológicos ou éticos com os evangélicos."

Um dos maiores estudiosos do fenômeno evangélico no Brasil, o sociólogo Ricardo Mariano (PUC-RS), vê como natural o embate entre neopentecostais e as lideranças de igrejas históricas. Ele lembra que, desde o final da década de 1980, quando o neopentecostalismo ganhou força no Brasil, os líderes das igrejas históricas se levantaram para desqualificar o movimento. "O problema é que não há nenhum órgão que regule ou fale em nome de todos os evangélicos, então ninguém tem autoridade para dizer o que é uma legítima igreja evangélica", afirma.

Procurado por ÉPOCA, Geraldo Tenuta, o Bispo Gê, presidente nacional da Igreja Renascer em Cristo, preferiu não entrar em discussões. "Jesus nos ensinou a não irmos contra aqueles que pregam o evangelho, a despeito de suas atitudes", diz ele. "Desde o início, éramos acusados disto ou daquilo, primeiro porque admitíamos rock no altar, depois porque não tínhamos usos e costumes. Isso não nos preocupa. O que não é de Deus vai desaparecer, e não será por obra dos julgamentos." A Igreja Universal do Reino de Deus - que, na terceira semana de julho, anunciou a construção de uma "réplica do Templo de Salomão" em São Paulo, com "pedras trazidas de Israel" e "maior do que a Catedral da Sé" - também foi procurada por ÉPOCA para comentar os movimentos emergentes e as críticas dirigidas à igreja. Por meio de sua assessoria, o bispo Edir Macedo enviou um e-mail com as palavras: "Sem resposta".

O sociólogo Ricardo Mariano, autor do livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Editora Loyola), oferece uma explicação pragmática para a ruptura proposta pelo novo discurso evangélico. Ateu, ele afirma que o objetivo é a busca por uma certa elite intelectual, um público mais bem informado, universitário, mais culto que os telespectadores que enchem as igrejas populares. "Vivemos uma época em que o paciente pesquisa na internet antes de ir ao consultório e é capaz de discutir com o médico, questionar o professor", diz. "Num ambiente assim, não tem como o pastor proibir nada. Ele joga para a consciência do fiel."

A maior parte da movimentação crítica no meio evangélico acontece nas grandes cidades. O próprio pastor Kivitz afirma que "talvez não agisse da mesma forma se estivesse servindo alguma comunidade em um rincão do interior" e que o diálogo livre entre púlpito e auditório passa, necessariamente, por uma identificação cultural. "As pessoas não querem dogmas, elas querem honestidade", diz ele. "As dúvidas delas são as minhas dúvidas. Minha postura é, juntos, buscarmos respostas satisfatórias a nossas inquietações."

Por isso mesmo, Ricardo Mariano não vê comparação entre o apelo das novas igrejas protestantes e das neopentecostais. "O destino desses líderes será 'pescar no aquário', atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia dúzia de pessoas", diz ele. De acordo com o presbiteriano Ricardo Gouveia, "não há, ou não deveria haver, preocupação mercadológica" entre as igrejas históricas. "Não se trata de um produto a oferecer, que precise ocupar espaço no mercado", diz ele. "Nossa preocupação é simplesmente anunciar o evangelho, e não tentar 'melhorá-lo' ou torná-lo mais interessante ou vendável."

O advento da internet foi fundamental para pastores, seminaristas, músicos, líderes religiosos e leigos decidirem criar seus próprios sites, portais, comunidades e blogs. Um vídeo transmitido pela Igreja Universal em Portugal divulgando o Contrato da fé - um "documento", "autenticado" pelos pastores, prometendo ao fiel a possibilidade de se "associar com Deus e ter de Deus os benefícios" - propagou-se pela rede, angariando toda sorte de comentários. Outro vídeo, em que o pregador americano Moris Cerullo, no programa do pastor Silas Malafaia, prometia uma "unção financeira dos últimos dias" em troca de quem "semear" um "compromisso" de R$ 900 também bombou na rede. Uma cópia da sentença do juiz federal Fausto De Sanctis (leia a entrevista com ele) condenando os líderes da Renascer Estevam e Sônia Hernandes por evasão de divisas circulou no final de 2009. De Sanctis afirmava que o casal "não se lastreia na preservação de valores de ética ou correção, apesar de professarem o evangelho". "Vergonha alheia em doses quase insuportáveis" foi o comentário mais ameno entre os internautas.

Sites como Pavablog, Veshame Gospel, Irmãos.com, Púlpito Cristão, Caiofabio.net ou Cristianismo Criativo fazem circular vídeos, palestras e sermões e debatem doutrinas e notícias com alto nível de ousadia e autocrítica. De um grupo de blogueiros paulistanos, surgiu a ideia da Marcha pela ética, um protesto que ocorre há dois anos dentro da Marcha para Jesus (evento organizado pela Renascer). Vestidos de preto, jovens carregam faixas com textos bíblicos e frases como "O $how tem que parar" e "Jesus não está aqui, ele está nas favelas".

A maior parte desses blogueiros trafega entre assuntos tão diversos como teologia, política, televisão, cinema e música popular. O trânsito entre o "secular" e o "sagrado" é uma das características mais fortes desses novos evangélicos. "A espiritualidade cristã sempre teve a missão de resgatar a pessoa e fazê-la interagir e transformar a sociedade", diz Ricardo Agreste. "Rompemos o ostracismo da igreja histórica tradicional, entramos em diálogo com a cultura e com os ícones e pensamento dessa cultura e estamos refletindo sobre tudo isso."

Em São Paulo, o capelão Valter Ravara criou o Instituto Gênesis 1.28, uma organização que ministra cursos de conscientização ambiental em igrejas, escolas e centros comunitários. "É a proposta de Jesus, materializar o amor ao próximo no dia a dia", afirma Ravara. "O homem sem Deus joga papel no chão? O cristão não deve jogar." Ravara publicou em 2008 a Bíblia verde, com laminação biodegradável, papel de reflorestamento e encarte com textos sobre sustentabilidade.

A então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, escreveu o prefácio da Bíblia verde. Sua candidatura à Presidência da República angariou simpatia de blogueiros e tuiteiros, mas não o apoio formal da Assembleia de Deus, denominação a que ela pertence. A separação entre política e religião pregada por Marina é vista como um marco da nova inserção social evangélica. O vereador paulistano e evangélico Carlos Bezerra Jr. afirma que o dever do político cristão é "expressar o Reino de Deus" dentro da política. "É o oposto do que fazem as bancadas evangélicas no Congresso, que existem para conseguir facilidades para sua denominação e sustentar impérios eclesiásticos", diz ele.

O raciocínio antissectário se espalhou para a música. Nomes como Palavrantiga, Crombie, Tanlan, Eduardo Mano, Helvio Sodré e Lucas Souza se definem apenas como "música feita por cristãos", não mais como "gospel". Eles rompem os limites entre os mercados evangélico e pop. O antissectarismo torna os evangélicos mais sensíveis a ações sociais, das parcerias com ONGs até uma comunidade funcionando em plena Cracolândia, no centro de São Paulo. "No fundo, nossa proposta é a mesma dos reformadores", diz o presbiteriano Ricardo Gouveia. "É perceber o cristianismo como algo feito para viver na vida cotidiana, no nosso trabalho, na nossa cidadania, no nosso comportamento ético, e não dentro das quatro paredes de um templo."

A teologia chama de "cristocêntrico" o movimento empreendido por esses crentes que tentam tirar o cristianismo das mãos da estrutura da igreja - visão conhecida como "eclesiocêntrica" - e devolvê-lo para a imaterialidade das coisas do espírito. É uma versão brasileiramente mais modesta do que a Igreja Católica viveu nos tempos da Reforma Protestante. Desta vez, porém, dirigida para a própria igreja protestante. Depois de tantos desvios, vozes internas levantaram-se para propor uma nova forma de enxergar o mundo. E, como efeito, de ser enxergadas por ele. Nas palavras do pastor Kivitz: "Marx e Freud nos convenceram de que, se alguém tem fé, só pode ser um estúpido infantil que espera que um Papai do Céu possa lhe suprir as carências. Mas hoje gostaríamos de dizer que o cristianismo tem, sim, espaço para contribuir com a construção de uma alternativa para a civilização que está aí. Uma sociedade que todo mundo espera, não apenas aqueles que buscam uma experiência religiosa".

Secretaria Diocesana Anglicana de Comunicação Social

Secretaria Episcopal
Diocese do Recife - Comunhão Anglicana
(das 8h às 13h)

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“Não te fazemos pedidos por sermos justos, mas por causa da tua grande misericórdia" (Daniel 9.18 - NVI).

domingo, 1 de agosto de 2010

Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos autoriza a Ordenação de pastores gays


A Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos na América (PCUSA), a maior daquela denominação nos EE.UU, aprovou a Resolução que autoriza a Ordenação como pastores de homossexuais praticantes. Quanto à outra Resolução que autorizaria o casamento religioso de pessoas do mesmo sexo, redefinindo “união entre homem e mulher” por “união entre duas pessoas”, a Assembleia decidiu retirar a matéria de pauta, para deliberação em outra ocasião. Hoje há ramos congregacionais, batistas, episcopais, presbiterianos, e outros, que estão adotando a Agenda GLSBT.

Fonte: www.anglican-mainstream.net

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Crer em Deus Hoje, Uma Opção Sensata?


Por Guilherme Parizio

Após séculos de racionalismo, quando a fé cristã parece que já sofreu toda sorte de ataques intelectuais possíveis, eis que se levanta no mundo outra frente de ataques a seus postulados. Seus novos detratores vêm tentar desarraigar a fé dos homens, à semelhança dos antigos que, encabeçados pelos iluministas na França, país de grandes homens de ciência e fé, como Calvino, Pascal, entre outros, mas de forte tendência anticristã, fizeram de suas existências um grito de revolta contra tudo o que era relacionado ao cristianismo. Os atuais se promovem como homens de idéias revolucionárias, mas na verdade só desenterram velhas teorias pronunciadas há mais de 200 anos por pensadores como Voltaire, Russeu, Diderot, Auguste Comte. Ou por cientistas como Oparin ou Darwin. Livros como "O RELOJOEIRO CEGO" e "DEUS, UM DELÍRIO", ambos de Richard Dawrkins e o "TRATADO DE ATEOLOGIA", de Michel Onfray são as novas "armas" que os atuais auto-intitulados "desmistificadores" se utilizam para embasar suas crenças. Crenças, sim, pois o ateu na verdade "acredita" que não há Deus, algo já debatido por filósofos de todos os matizes. É lamentável constatar que os dois tipos de ateísmo continuam bem vivos: o prático e o teórico. O primeiro é o das massas e o segundo, que descrevemos aqui, é o dos pseudo-intelectuais. E vivos em uma época em que os homens mais precisam de Deus.

É a fé cristã antiintelectualista? Não é compatível com os postulados da razão? Dê sua opinião, poste um comentário.

A Iconografia dos Outros Cristianismos


Por Guilherme Parizio

Para a maioria das pessoas o termo iconografia, ou arte religiosa cristã, está relacionado exclusivamente as formas romana e ortodoxa do cristianismo. Nada mais longe da verdade. É claro que historicamente essas igrejas produziram obras de valor muito mais significativo para a história da arte. Através da iconografia, seja na forma tridimencional (modelo preferido pelos artistas latinos) seja nos baixos e altos relevos (forma obrigatória na igreja oriental) ficamos sabendo como os povos que nos precederam concebiam o mundo, adoravam, vestiam-se. Nos inteiramos do imaginário religioso das mais diversas épocas. Todo esse movimento iconográfico, longe de ser apenas um meio de aproximação individual com o divino, transforma-se, pois, em fonte de informação valiosissima.



Ficando estabelecido como ponto pacífico a contribuição das representações artísticas cristãs para a história (eclesiástica e secular) gostaria de convidar o leitor para incursionar no mundo pictórico das outras correntes cristãs. Nas próximas postagens iremos explorar esse mundo tão pouco conhecido entre os cristãos brasileiros.

O Ateu Pode Ser Ético?


Por Guilherme Parizio

O debate em torno da questão fundamental da existência ou não de um Ser superior, regente do universo parece que está longe de acabar. O ateísmo é, a meu ver, um fator que afeta a cosmovisão de todo e qualquer indivíduo no quesito ética e moralidade. A sociedade pode prescindir da idéia de Deus sem com isso comprometer sua existência? O caos verificado em todos o setores da sociedade atualmente não será decorrente dessa falta de esperança em um mundo extratemporal regido por um Ser moralmente capacitado?
Nunca houve uma civilização eminentemente atéia. Um mundo totalmente secularizado é algo novo na história humana. Não será o caso de concordarmos com a velha máxima "Se Deus não existe, tudo é permitido?” Opine.

domingo, 4 de abril de 2010

Contra Toda Falta de Esperança (Mensagem de Páscoa)


Por Guilherme Parizio


Os discípulos estão novamente reunidos. Haviam se dispersado na noite da prisão de Jesus. Mas, para onde ir? Todos estavam confusos e atordoados. Nada fazia sentido. Tudo aquilo que aprenderam com o mestre parece que não tinha mais utilidade. Teriam sido três anos inúteis? Três anos de investimento que não deu em nada? Tudo parecia indicar que sim, pois o fim tinha sido desastroso. Tinham em vista o saldo de dois mortos: um discípulo, exatamente o traidor e aquele em que haviam depositado toda a sua confiança e que lhes havia feito tantas promessas. Um fim melancólico para uma história que parecia que nunca teria fim, mas não muito diferente de tantas outras que já haviam ouvido ou mesmo presenciado. Muitos já haviam se arrogado o título de Messias, o libertador do povo judeu. E todos, a semelhança desse, haviam igualmente perecido de morte ignomínia.

Mas esse parecia tão diferente. Suas palavras ardiam como fogo. Seu olhar transmitia ao mesmo tempo confiança e ternura. Sem falar nos sinais, que em todos causava espanto. Sim, esse homem era diferente. O que deu errado?

Reunidos novamente. Precisavam tentar descobrir juntos o que havia dado errado. Tentavam reviver aqueles momentos de comunhão que o Mestre lhes proporcionava de forma tão agradável. Mas sem ele nada mais fazia sentido. Havia um imenso vazio. Talvez fosse hora de se dispersar novamente e voltarem as suas vidas normais. Pedro não mais pescaria homens. Quem sabe Mateus conseguiria sue emprego de volta? Era o fim de um sonho.

Batidas na porta. Seria a guarda romana ou os judeus que viam para prende-los? A voz de Maria Madalena se faz ouvir. A porta se abre e ela anuncia algo inusitado. Pedro e João não esperam para ouvir os resto. É hora de correr para confirmar todas essas coisas. Mas em seus corações sabiam que aquilo tudo era verdade. Uma nova história. Um novo começo. Cristo Ressuscitou! Aleluia! Contra toda falta de esperança.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Coral Filadelfia




Como apreciador de música clássica que sou, em especial barroca, como já expressei em outra ocasião nesse blog, sempre procuro na web por videos e audios de obras bem executadas. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com o video acima, do coral da Assembleia de Deus. O coral Filadelfia está perfeito, para a glória de Deus. Os hinos são muito bem acompanhados pela orquestra, se harmonizando muito bem ao coro. Os solistas são verdadeiros profissionais, podendo facilmente se apresentar nos melhores corais de nosso país. Acredito que poderia-mos fazer uma maior divulgação desse trabalho, pois acredito na tliplice função da música: 1-Louvar e engrandecer a Deus; 2-Aproximar as pessoas desse mesmo Deus, tornando-se um método evangelístico; 3-Nos proporcionar enlevo espiritual, sendo uma poderosa ferramenta de edificação. Nos espíritos "ativistas" geralmente a opção preferencial são os hinos mais ritmados e que conclamam para a batalha, uma tradição em nossa igreja. Nos mais, digamos, "contemplativos" (como eu) os hinos mais introspectivos e solenes são os que produzem um efeito mais eficaz.

Agora assistam o vídeo e comentem. Espero gerar um debate em torno do uso das formas mais clássicas de música no meio pentecostal.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Fé na Internet


Evangélicos se convertem à rede

Publicado em 10.03.2010



Não é apenas a Igreja Católica que vem utilizando a internet como instrumento de difusão de crenças e dogmas religiosos. As igrejas Anglicana e Batista já não dispensam o uso de ferramentas virtuais para catequizar e informar seus fiéis. Aliás, informação é o que não falta, e os blogs, nesse sentido, vêm se mostrando fortes aliados na difusão dessa nova forma de interagir com a comunidade.



Desde que descobriu o mundo virtual, o secretário responsável pela Diocese da Igreja Anglicana do Cone Sul da América, reverendo Daniel Barbosa, divulga os eventos de sua igreja no site da instituição, além de manter um blog e perfil pessoal no Orkut. “Sempre procuro usar as mensagens para o bem, variando os temas abordados. Acredito que a tecnologia, além de aproximar os fiéis, é um canal de difusão de ideologias”, afirma o clérigo.



Há mais de dois anos ele divulga campanhas ambientais e de cunho político em sua página pessoal e admite que, de início, ficou com receio de aderir às ferramentas. “Como não conhecia bem as tecnologias, fiquei com um certo medo. Todos falavam mal do Orkut, por exemplo, dizendo que era muito aberto. E de fato, muita besteira é dita na rede social. No entanto, como o telefone anda muito caro, resolvi abrir uma conta e não me arrependo, pois não tive problemas”, diz Barbosa.



No caso da Igreja Anglicana, a recomendação de que os clérigos utilizem as ferramentas digitais, aqui no Recife, existe há mais de uma ano. O bispo diocesano da cidade, dom Robinson Cavalcanti, orientou a comunidade a divulgar suas atividades através de blogs pessoais, todos linkados ao site oficial da diocese. “Hoje, temos uma lista aberta de 15 mil pessoas que recebem nossa newsletter. Os links dos blogs têm nos ajudado na divulgação de uma imagem que visa evitar distorções sobre nossa forma de lidar com a religião, e isso é muito positivo”, comemora o bispo. No site da diocese, os internautas ainda podem escutar a rádio experimental da igreja, com programação musical e informativa.
Fonte: Jornal do Comercio