segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

E o ateísmo toma o ônibus

Deus que se cuide para não ser atropelado. Acaba de desembarcar no Brasil um ateísmo militante que não se contenta em agitar cenáculos filosóficos, mas vai às ruas e toma o ônibus.
Sob inspiração da Atea, Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, alguns ônibus de capitais como Porto Alegre e Salvador passariam a divulgar frases inteligentes como "Religião não define caráter" ou apressadinhas como a que lembra que um cara como Hitler acreditava em Deus. Segundo os organizadores, Deus estaria também seriamente envolvido na tragédia do 11 de Setembro. A campanha, um sucesso em Londres no ano passado, entre nós foi momentaneamente suspensa e está sendo objeto de boas e saudáveis discussões jurídicas e teológicas.
De qualquer forma, graças a Deus, e não certamente às Igrejas, esses nossos ateus nacionais não serão, como em outras eras, queimados vivos em praça pública, nem mesmo excomungados. Fosse nos séculos 11, 12...
Mas a verdade é que os crimes em nome de Deus, cujos reflexos agora ameaçam incendiar (filosoficamente!) ônibus em pleno século 21, não começaram ali, na Idade Média. É possível que tenham começado em outubro de 312, quando um general romano brilhante e supersticioso, Constantino, julgou ver uma cruz no céu anunciando sua vitória contra o rival Maxêncio.
Constantino ganhou a parada, virou imperador e o evangelho de Jesus sofria aí a sua maior derrota moral em todos os tempos. Porque no ano seguinte, 313, o Édito de Milão liberava a prática de cultos não oficiais e o século 4º terminaria com o cristianismo sendo proclamado a religião oficial do Império Romano. Padres passam a receber salários do Estado e bispos ganham o status de príncipes.
Essa sagração oficial constituiu, para a mensagem de Jesus, um golpe bem mais letal do que os males que nos últimos tempos tanto têm preocupado os papas, como a minissaia, o sexo livre e a camisinha. Na banda oriental do Império Romano, capital Constantinopla, a religião cristã se torna, a partir do século 4º, um mero departamento da corte, com imperadores nomeando ou desterrando bispos à vontade. Na decadente banda ocidental, capital Roma, a Igreja enfrenta e converte os bárbaros, uns certos francos, alemães e ingleses, e vai aos poucos montando seu próprio império, o Sacro Império Romano Cristão. Firma-se então um totalitarismo político-religioso que vai durar quase mil anos.
Não é difícil entender quanto esse Deus compulsório das crenças baseadas em revelações proféticas tem tudo para se tornar uma das mais ressentidas e amargas fontes de ateísmo. Diferentemente das religiões sapienciais, como o confucionismo, que se preocupa mais com a ética e as místicas, e o budismo, que se ocupa da iluminação de cada um, as proféticas, como o islamismo e o cristianismo, caem na tentação de instituir e, claro, politicamente comandar um puro e único reino de Deus na terra. O que, como em todas as ditaduras, sempre começa com a melhores intenções e com o tempo só se mantém com a ajuda da polícia. No caso religioso, essa salvação na marra tem consequências particularmente abomináveis. Nem é preciso ser um grande historiador para ver quanto, na história da humanidade, a pureza e a fé mataram mais do que o pecado e a dúvida.
No Ocidente, esse adultério entre poder e fé se prolongou por séculos e resultou numa sociedade totalitária, onde nada - cultura, ciências, sonhos, hábitos - podia ficar de fora do controle minuciosamente invasivo da Igreja. Que o digam as bruxas e judeus martirizados, e Giordano Bruno tendo a boca rasgada numa praça de Roma, e Galileu Galilei precisando de muita inspiração do Espírito Santo para driblar seus inquisidores. Só a muito custo e muito na marra a Igreja foi se desfazendo dos seus sonhos absolutistas.
Depois de tantos séculos de asfixia social, científica e espiritual, não é de estranhar que esse temor a Deus, tão tristemente cultivado, se transforme em bronca de Deus, chegue às ruas e tome o ônibus. Será uma pena se essa bronca não for em frente. Mais do que contra Deus, o que ela saudavelmente combate é a apropriação arrogante do seu santo nome, o descarado uso comercial ou político da fé. Ela tem tudo para incomodar, com razão, aqueles ateus covardes que criam um Deus à imagem e semelhança dos seus medos, preconceitos e amarguras, numa confortável distância do Deus Jesus, que pede o amor includente ("como o sol e a chuva que caem sobre bons e maus"), o amor eficiente (parábola do bom samaritano), o dever de perdoar para obter misericórdia, a confiança inabalável mesmo na escuridão ("em tuas mãos entrego meu espírito"). Hoje basta ligar a televisão para ser abalroado por gente que sabe exatamente o que o Senhor do Universo quer e não hesita em cobrar caro por isso, moral e financeiramente.
Mas claro que nem só de ateus bronqueados vive a Atea. Há nesse movimento o ateu simplesmente racional, científico, que considera Deus uma hipótese não só perigosa, mas infundada. Para esses, talvez não custe lembrar que essa questão é, felizmente, mais complexa, emocionante e intrigante. E poderia ser assim radicalizada: fora da opção religiosa pela verdade revelada na fé, ainda não há sobre a face da Terra nenhuma prova final, definitiva, verificável, da existência de Deus. Fora da opção racional pelo ateísmo, ainda não há sobre a face da Terra nenhuma prova final, definitiva, verificável da não existência de Deus.
Seria, pois, mais justo, e até mais divertido, que crentes e ateus se dessem as mãos na esperança de um dia, de alguma forma, emboscar Deus nas teias das nossas mais recentes viagens pelo fundo do universo(Hubble), pelo fundo do inconsciente coletivo humano (Jung) ou pelo próprio coração da matéria (LHC, o acelerador de partículas).
Por enquanto, Deus pode ser uma ilusão, não necessariamente um erro. A distinção é clássica. Dizer que a Terra é o centro do universo é um erro. Sonhar com um príncipe encantado pode ser uma ilusão, mas pode acontecer.
Por enquanto, não é justo negar por negar um Deus vivamente perceptível pela experiência mística, o ritual emocionado ou a confiança amorosa. Bilhões de pessoas em todas a eras e culturas tem haurido nesse Deus cotidiano um norte para suas vidas, valores éticos, alegria de viver, conforto na dor e uma esperança de vitória sobre essa precariedade final, a morte.
Nem todos gozam dessa fé pura e simples. Para muitos, e cada vez mais, sobra uma fé batalhada e inquieta. Madre Teresa de Calcutá, por exemplo, escreveu cartas ao confessor em que revelava seus longos períodos sem Deus, a ponto de declarar que, caso se tornasse santa, seria a "santa da escuridão". O escritor francês Georges Bernanos, católico indomável, ao morrer, ousou dizer a Deus: "Agora é entre nós dois".
Da sua parte, os militantes da Atea devem reconhecer que, nesses séculos todos, Deus não esteve ocupado apenas em iluminar Hitler ou providenciar virgens para o céu de terroristas. Ele também fortaleceu homens do tamanho de um Luther King nos Estados Unidos, de um Desmond Tutu na África do Sul, de um Oscar Romero em El Salvador.
Termino com três aproximações, provocações, ou quem sabe, parábolas. Numa empresa qualquer, dois rapazes e uma moça trabalham juntos há anos. Acontece que um deles se apaixona pela menina. Ambos tem o mesmo, diário e continuado conhecimento da colega, mas só um percebe nela uma outra realidade. Ateus devem levar em conta que o conhecimento racional não é tudo.
Nos Estados Unidos, um respeitado filósofo da mente, Daniel Dennet, autor de A Perigosa Ideia de Darwin, todos os anos organiza e dirige corais de Natal com os vizinhos, mesmo sendo um ateu convicto.
À certa altura do seu conto O Fim, Jorge Luis Borges interrompe a narrativa de uma vulgar briga de faca para dizer o seguinte: "Há uma hora da tarde em que o pampa quer nos dizer alguma coisa e não diz, ou talvez diga infinitamente e não entendemos, ou entendemos, mas é intraduzível como a música". Ele poderia estar falando de Deus.
Longe de pensar que ateus não passam de cínicos sem valores. Crentes teriam muito a aprender à luz desses ônibus incendiados de mensagens desassombradas. E a única coisa que talvez se possa pedir aos ateus é que não deixem de ouvir música. Outras músicas.
CARLOS MORAES É GAÚCHO DE BAGÉ. ORDENADO PADRE EM 1966, FOI CONDENADO À PRISÃO EM 1972 COM BASE NA LEI DE SEGURANÇA NACIONAL. TRABALHOU COMO JORNALISTA NAS REVISTAS REALIDADE, PSICOLOGIA ATUAL E ÍCARO. É AUTOR DE DEUS VAI TE PEGAR LÁ FORA (RECORD)

Fonte: ESTADÃO.COM.BR
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,e-o-ateismo-toma-o-onibus,655392,0.htm

Noivo mata noiva, padrinho e depois se suicida em festa de casamento

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                    Tudo se deu após cerimônia espírita

Um supervisor de vendas assassinou a esposa, uma advogada, o chefe dele e padrinho do casal, e depois se matou com um tiro na testa, na madrugada deste sábado (18). O irmão da noiva também ficou ferido.
O crime aconteceu no Grande Recife, durante a festa de casamento do casal, que havia realizado a cerimônia no civil na última sexta-feira (17). O noivo chegou a ser chegou a ser internado no Hospital da Restauração (HR), mas não resistiu e teve morte cerebral na manhã deste domingo (19). O enterro dele será realizado nesta segunda-feira (20). O irmão da noiva foi atendido em um hospital e já teve alta.
Segundo testemunhas, a festa transcorria normalmente até o momento em que o noivo dirigiu-se à caminhonete do pai, onde supostamente estaria a arma. A polícia avalia que houve premeditação, pois o noivo teria anunciado que todos teriam uma surpresa.
Até o momento, a única pessoa ouvida foi o pai do noivo, segundo a polícia. Todas as demais testemunhas estão sem condições de prestar depoimento e a polícia aguardará mais alguns dias para dar início às investigações. A arma do crime segue desaparecida.
A polícia informou que já solicitou à administração do condomínio onde estava sendo realizado o casamento as imagens das câmeras de segurança, mas acrescentou que ainda é muito cedo para falar na motivação do crime. O prazo para conclusão do inquérito é de 30 dias.

Fonte: G1
http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/12/noivo-mata-noiva-padrinho-e-depois-se-suicida-em-festa-de-casamento.html

sábado, 11 de dezembro de 2010

Ateísmo débil

por Bruno Cava – Com o subtítulo “Introdução a uma espiritualidade sem Deus”, é o livro mais audacioso de André Comte-Sponville. O filósofo iniciou a carreira na tradicional academia francesa, mas sua inquietação não-acadêmica acabou por afastá-lo de bancas e auditórios e currículos online. Passou a escrever mais livremente, quase diletante, de todo modo em clima didático e descontraído. Propôs-se a divulgar a filosofia, na sua vertente materialista, naturalista, humanista e atéia. Publicou obras com títulos frugais como Pequeno tratado das grandes virtudes, Uma educação filosófica e Viver.
Livre do pesadume de notas de rodapé e longas citações, seus livros conseguem articular conteúdos sem atrofiar em lição de escola ou, horror!, auto-ajuda travestida de ensinamento filosófico. Tributário de uma prosa confessional, em primeira pessoa, na melhor tradição de Michel de Montaigne e Blaise Pascal, as obras vertem a ontologia de Epicuro, Spinoza, Nietzsche ou Wittgenstein, em ensaios palatáveis e salpicados de insights, digressões elucidativas e humor inteligente. Correndo por fora do mainstream intelectual, o autor tem sido um êxito editorial, como educador eloqüente, que não hesita em comparecer à televisão para se dirigir ao grande público — por assim dizer fusão (improvável) de Marilena Chauí e Viviane Mosé.
Em O Espírito do Ateísmo, o materialista epicuro-spinozano pretende conciliar-se com o lado espiritual. Sem Deus, transcendência, esperança ou autoridade religiosa; mas com “fidelidade”, “sentimento oceânico”, “serenidade” e “comunhão”. Em síntese, um lado espiritual independente das religiões. Sua meta: explicar como um ateu não precisa renunciar à espiritualidade, e como esta não está associada necessariamente à crença em Deus e menos ainda à filiação religiosa.
Para isso, Comte-Sponville divide a peça em três atos: “Pode-se viver sem religião?”, “Deus existe?” e “Que espiritualidade para os ateus?”.
No primeiro ato, reafirma-se a repulsa por qualquer sistema de autoridade baseado no dogma, na moral institucional, na verdade anunciada — com seus “janízaros do absoluto” e suas cruzadas assassinas. Se Deus existe tudo é permitido, pois não se transige com o absoluto. Por um lado, Comte-Sponville admite que as religiões, quando moderadas e submetidas ao poder civil laico, podem ser úteis como consolo metafísico ou fio condutor de comportamento. Afinal, diante do sofrimento e da morte, cada um se arranja como pode. Quem somos nós para frustrá-los. Mas, por outro lado, sustenta que a religião é dispensável para fundamentar uma ética, logo, a felicidade. Que se pode jogar a água da banheira fora, mas não o bebê.
Daí Comte-Sponville introduzir a sua versão humanista-e-secular de ética não-religiosa. Eis um cristianismo mundanizado, e por isso esboça chamá-lo, paradoxalmente, de “ateísmo cristão”, para então se contentar com “ateísmo fiel”. Isto significa um ateísmo que não prescinde dos valores cristãos, nominalmente a comunhão e a fidelidade. Não rejeita a memória da comunidade e o convívio humanista com as pessoas, no sentido de assistência, caridade, temperança, eqüidade e polidez. Um ateísmo light, entre o agnosticismo pudico e o (ele rotula) “niilismo bárbaro” — tão nocivo e incivilizado à sociedade quanto os piores fundamentalismos religiosos.
O segundo ato, “Deus existe?”, é o menos polêmico. E gerará menos calores nas mãos do leitor ateu. Aqui, Comte-Sponville compila seis cadeias de argumentos para não se acreditar numa entidade pessoal, transcendente e eterna, criadora do mundo, acima do bem e do mal, que gerou o ser humano a sua imagem e semelhança, com o fito de cumprir um plano providencial e secreto, que visa à salvação das almas. Deus do cristianismo, islamismo e judaísmo. Seguem refutações loquazes, elegantes, das célebres provas de Deus — ontológica, cosmológica e física –, bem como os conhecidos argumentos da enormidade do mal e da mediocridade do homem. Capítulo leve, quase burocrático, não fosse a prosa límpida do autor, menos passional que Richard Dawkins, mas igualmente convincente. Até aqui, nada de novo no reino do ateísmo.
O bicho pega é no terceiro ato, a razão de ser do livro.
Convocando usuais referências do cânone ocidental, mas também “orientais”, como Lao-Tsé, Nagarjuna, Krishnamurti e Prajnanpad, o autor pretende estabelecer que o ateu também tem espírito, ou melhor, um lado espiritual. Nada tem de anímico, transcendente ou participante do divino, mas também não possui sentido figurado. É espírito mesmo. Trata-se de um atributo que distingue o humano dos demais animais. Que faz o homem contemplar uma bela paisagem ou gozar estupefato de uma sinfonia de Mozart. E permite, assim, que uma criatura finita e relativa possa experimentar o absoluto e o ilimitado.
A mãe dos argumentos dele é uma experiência absolutamente pessoal do absoluto, um sentimento do Todo que, na sua inteireza e desproporção, seria inenarrável. Epifânica. É uma vivência reveladora, num “sentimento oceânico” que várias pessoas relatam em certas ocasiões singulares. Um amor por todas as coisas que dá vontade de chorar, uma revelação de plenitude imensamente serena; uma aceitação total do enigma agasalhado no peito; uma prostração apaziguadora e venerável, pela insignificância do homem diante de um universo infinito, do universo indiferente, do “eterno silêncio desses espaços infinitos”.
Ousado, Comte-Sponville confessa filiar-se ao misticismo, ao mistério, ao “fazer silêncio”. Subscreve Ludwig Wittgenstein, no seu mergulho calado nos confins da lógica e da ontologia. Subscreve Martin Heidegger, no seu escutar do Ser, nas entranhas da floresta negra da existência.
São sessenta páginas tentando verbalizar essa epifania que, para o autor, inaugura e possibilita uma espiritualidade atéia — nada contraditória com seu materialismo e naturalismo.
Audacioso, porém impotente.
A impressão que tive, ao finalizar O Espírito do Ateísmo, é que Carlos Drummond foi mais sintético e expressivo, mais feliz, com o poema “A Máquina do Mundo” — entre outros de sua fase metafísico-sentimental. É curioso como tais teodicéias místicas sempre e sempre se realizam com viagens para a floresta, em imersões na natureza silvestre. Quer diante de um lago bucólico, de um velho plátano, de uma cachoeira tropical, de uma estradinha de Minas Gerais… o “sentimento oceânico” jamais ocorre no burburinho da metrópole, na azáfama de vozes e cheiros das ruas e praças. A meditação pressupõe paisagens amplas e contemplativas, e afasta o homem de suas preocupações (supostamente) menores e mais imediatas.
Mas a fuga da cidade é também o distanciamento da política. A estética da aceitação, da escuta do Ser e a contemplação assombrada, não importa, todas elas contrariam uma ética da revolta. Na medida em que não se revolvem e se remordem com o absurdo, mas o abraçam e se contentam. Esse contentamento me enche de ódio. Fazem do absurdo um bonsai e não uma máquina de guerra, e assim adormecem no conformismo deslumbrado.
Mais uma vez Camus foi clarividente, quando escreveu que só o ateísmo é pouco, pois a negação pela negação nada produz. O ateísmo não viceja seus frutos podres se não passar ao campo da prática, na revolta no seu tempo, contra o seu tempo. Viver absurdamente demanda que o absurdo se conjugue com o orgulho e a revolta, numa recusa militante à finitude, à totalidade, ao absoluto, isto é, a todas as formas de fraqueza, conciliação e subjugação. O homem exila-se em sua vida menos por se prostar e aceitar sua falibilidade e torpeza, do que por insubmissão n´importe quoi.
Mesmo nos últimos suspiros, sentirá o ciúmes daqueles que ficam, que poderão saborear um sorriso, uma risada, um bom vinho ou a boca da mulher. “Eu irei para debaixo da terra, e você, você caminhará ao sol!” O ateu revoltado morrerá irreconciliado, sua sabedoria não virá jamais. E não escreverá odes ao poente nem se inebriará com a sua insignificância. Disso, no máximo, poderá rir, com timbre trágico, nunca aceitar.
André Comte-Sponville assume uma ética do apaziguamento. Pretende saciar a sua fome de absoluto com uma outra religião. Religião pós-moderna? pós-materialista? Uma religião orientalizada (nunca oriental), um misticismo desesperado, um pessimismo passivo disfarçado de contemplação, na mesma linha de Arthur Schopenhauer, e de infindáveis autores esotéricos contemporâneos. Prefere o silêncio da floresta e a sua clara noite, à alegria carnavalesca da metrópole, ao espetáculo de dança e sangue da política mundana. Prefere os olhos e as pupilas cansadas aos dentes e mandíbulas vorazes. Zaratustra não foi ao deserto para reconciliar-se com o mistério, mas para sofrer até a última gota de absurdo e não se purificar.
Na busca por simpatia universal, Comte-Sponville não concilia o ateu com o seu lado espiritual. Domestica-o com a “espiritualidade” e termina por oferecer apenas mais uma religião da decadência — tão contemporânea, tão débil.

Fonte: Amálgama ( http://www.amalgama.blog.br/11/2010/ateismo-debil/)

Avó reza para que Obama se converta ao islamismo

A avó queniana do presidente Barack Obama, Sarah Obama, que acaba de terminar sua peregrinação a Meca, disse ter rezado para que seu neto se converta ao islamismo. A declaração foi feita durante uma entrevista publicada nesta quinta-feira pelo jornal saudita Al Watan. Obama é cristão, mas pesquisas mostraram que muitos americanos acreditam que ele seja muçulmano.
"Orei para que meu neto Barack se converta ao Islã", declarou Sarah, de 88 anos. Segundo o diário, ela fez a peregrinação acompanhada do filho, Said Hussein Obama, tio do presidente americano, e de quatro netos.
Sarah destacou, no entanto, que só falaria sobre sua peregrinação a Meca e se negou a comentar a política do neto ilustre.
A família foi convidada a fazer a viagem pelo governo saudita. Said Husein agradeceu ao rei Abdullah por "sua hospitalidade", de acordo com o Al Watan.
Origem - Sarah Obama é a terceira esposa do avô de Barack Obama. Embora não exista nenhum vínculo biológico, o presidente a considera sua avó paterna. 
De acordo com uma pesquisa de opinião publicada em agosto, uma em cada cinco pessoas nos Estados Unidos acha que o presidente é muçulmano, apesar das reiteradas afirmações da Casa Branca de que o presidente é cristão.

Fonte: Veja

Presidente da EBC: toda religião deve ter expressão na TV pública

Tereza Cruvinel, presidente da EBC, disse que irá propor que todas as religiões tenham espaço na programação, caso conselho queira permanência de programas católicos e evangélicos
Foto: Ney Rubens/Especial para Terra


Ney Rubens
Direto de Belo Horizonte
A presidente da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), Tereza Cruvinel, disse, nesta terça-feira, que apresentará uma proposta para que todas as religiões tenham programas na grade da TV Brasil e das oito emissoras de rádio que compõem a rede pública, caso o conselho de curadores da companhia decida pela não retirada dos programas católicos e evangélicos do ar.
"É uma questão ainda em debate, um debate muito caloroso. Há posições divergentes. Há quem diga que o Estado é laico, então não deve ter religião. Eu digo: mas a TV não é do Estado, a TV é pública, então, ela é da sociedade, a sociedade é diversa. Na minha opinião, todas as religiões devem ter expressão na TV pública. Na próxima reunião quando o conselho for retomar o debate, a TV Brasil vai apresentar uma proposta de ampliar o papel das religiões," disse Cruvinel.
Parte do conselho da EBC participou de uma audiência pública em Belo Horizonte, em Minas Gerais, e havia a expectativa de que a medida fosse votada. Os membros, porém, optaram por adiar a decisão para a próxima reunião, em 15 de fevereiro de 2011.
"Hoje nós só temos de fato, programas católicos e evangélicos (...) Acho que é mais condizente ter a pluralidade do que proibir tudo", afirmou a presidente da EBC. "Acho que isso foi uma demonstração de maturidade do conselho de não tomar uma decisão que não unifica. Quando as opiniões estão divididas é sinal de que é preciso conversar mais".
José Eduardo Gonçalves, presidente da Rede Minas, ligada ao governo do Estado, disse que, se o conselho decidir pela retirada do ar dos programas religiosos, a emissora estatal acatará a decisão. "Não temos uma programação religiosa. Nossa programação é laica. Só que aos domingos pela manhã, temos uma missa. Essa é uma tradição" disse. "Tudo que vier determinado para o funcionamento das TVs públicas, nós vamos obedecer. (...) Isso não terá nenhum impacto a respeito do faturamento da grade. Nós não fazemos aluguel do nosso espaço para programas religiosos".
Regulamentação da mídia
Tereza Cruvinel afirmou ainda que o governo federal pretende criar uma agência reguladora do setor de telecomunicação e radiodifusão, mas que o projeto ainda está em fase de estudos e por isso não "existe uma versão definitiva."
"Se nós estamos discutindo uma regulação, tem que ter um órgão para fazê-la", afirmou. "A regulação existe em todas as democracias, como ficou claro no seminário de mídia que aconteceu em Brasília há três semanas com representes de vários países".
Cruvinel disse que a EBC participa da elaboração do projeto que criaria a agência reguladora, mas que o documento ainda depende de aperfeiçoamento. "Eu não conheço o anteprojeto. Eu acho que, como jornalista, precisamos de regulação. A liberdade de imprensa é um direito sagrado de todos, mas existem outros direitos que também precisam ser preservados".

Fonte: Terra

Silio Boccanera entrevista Terry Eagleton

"A religião é uma força ideológia poderosa"

A Consultor Jurídico publica, nesta sexta-feira (10/12), a transcrição da entrevista do crítico literário e cultural irlndês Terry Eagleton, concedida ao jornalista Sílio Boccanera, do programa Milênio, da Globo News, no dia 10 de novembro, durante a Flip - Festa Literária de Paraty. O Milênio é um programa do canal de televisão por assinatura Globonews, que entrevista pensadores do mundo inteiro sobre os mais diversos assuntos. Vai ao ar às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30 de terça-feira, às 5h30 de quarta e às 7h05 de domingo.
Leia a seguir a entrevista:
Em debate para um auditório lotado durante a FLIP, a Festa Literária de Paraty, no Rio de Janeiro, o crítico cultural e literário britânico Terry Eagleton, mostrou que merece a fama de polemico e combativo. Protestou até contra o entrevistador, que citou algumas das críticas a ele. O convidado não gostou. Críticas como a do jornal britânico Sunday Times que classificou Eagleton de marxista, religioso, velho e punk. Ou o comentário da viúva do escritor Kingsley Amis em resposta às acusações de anti-semitismo e homofobia que Eagleton fez ao marido. Ela chamou Eagleton de uma mistura mortal de católico com marxista.
Ainda em Paraty, Eagleton achou tempo para desancar o ateísmo militante dos compatriotas Richard Dawkins e Christopher Hitchens, além de apontar uma suposta islamofobia dos premiados escritores Martin Amis e Salman Rushdie. Este é o famoso autor indiano perseguido por fundamentalistas islâmicos que na mesma FLIP chamou Eagleton de covarde e mentiroso. O acusado não respondeu.
Hoje com 67 anos, Eagleton já publicou mais de 40 livros sobre cultura, política e religião, vários deles traduzidos no Brasil, e centenas de artigos e ensaios sobre os assuntos mais variados. De nacionalismo a pós-modernismo, de Shakespeare a Oscar Wilde, Wittgenstein e Walter Benjamin. Seu próximo livro terá o título Por que Karl Marx estava certo. Ele hoje dá aulas nas universidades de Lancaster na Inglaterra, Notre Dame nos Estados Unidos e na Universidade da Irlanda. Conversamos com Eagleton em Paraty.
Terry Eagleton — Antes de mais nada, eu queria agradecer por essa introdução deveras sensacionalista, que me faz parecer mais um boxeador peso-pesado do que um intelectual. Tomara que vocês não estejam esperando que eu comece a pular em volta do palco, me pendurando no teto como um gorila, dada essa introdução, que poderíamos descrever como um tanto apelativa. Espero que sejamos intelectualmente sérios aqui.
Silio Boccanera — Pode deixar.
Terry Eagleton — E, por favor, não vamos nos limitar a um duelo de pesos pesados. 
Silio Boccanera — Tirando “religioso, velho e punk”, como foi descrito pelo Sunday Times, o senhor é, muitas vezes, classificado como um crítico literário e cultural marxista. Se aceitar essa descrição, o que isso faz do senhor?
Terry Eagleton — Vou responder à sua pergunta falando como... Eu queria falar rapidamente sobre esse debate sobre Deus. Você levantou a questão desses diversos conflitos. Prefiro não começar entrando direto no debate e perguntando quem acredita ou não em Deus. Eu queria me distanciar por um instante e dizer como é incrível que um debate sobre Deus esteja acontecendo. Por que Deus subitamente voltou ao debate numa era que se diz pós-religiosa, pós-metafísica, pós-moderna e, como alguns diriam, pós-histórica? O que está havendo? Por que todo mundo voltou a falar em Deus? Então, a primeira pergunta a se fazer é: “Por que esse debate está de volta, logo agora que Deus parece ter saído de cena, com certeza, já muito arrependido de um dia ter criado a mínima partícula de matéria, e muito mais por ter criado Donald Rumsfeld [secretário de Defesa dos Estados Unidos no governo de George W. Bush]?” Por que, subitamente, ele voltou a ser alvo de discussão? Obviamente, há diversas respostas para isso. Mas vou sugerir, rapidamente, uma: o 11 de Setembro. Estou me referindo, é claro, ao 11 de Setembro mais recente, não ao primeiro 11 de Setembro, que o povo deste continente conhece bem: o dia em que o governo dos EUA derrubou violentamente o governo democraticamente eleito de Salvador Allende no Chile, substituindo-o por um ditador abominável que acabou assassinando muito mais gente do que os atentados ao World Trade Center. O primeiro 11 de Setembro! Na verdade, houve um11 de setembro antes disso que pouco se comenta: o nascimento de Theodor Adorno, mas só os direitistas consideram isso uma catástrofe. Mas, deixando isso de lado e respondendo à sua pergunta, eu acho que um dos grandes motivos para Deus ter voltado ao centro do debate é o 11 de Setembro.
Silio Boccanera — Nos livros que o senhor escreve sobre religião, principalmente nos que critica Dawkins e Hitchens, o senhor expõe uma visão muito pessoal de Deus, uma visão diferente daquela que muitas pessoas têm de Deus. Como o senhor definiria esse conceito de Deus?
Terry Eagleton —
Não acho que eu tenha uma visão pessoal de Deus. Prefiro considerá-la uma visão tradicional. Acreditando ou não em Deus, nós temos a responsabilidade intelectual de entender direito o significado disso. Eu não critico Richard Dawkins por sua descrença em Deus. Milhões e milhões de pessoas não acreditam em Deus. O problema é que ele não faz idéia do que significa acreditar em Deus. Eu considero o Richardo Dawkins, um racionalista antiquado do século 19 que acredita que Deus é uma espécie de pseudocientista, que Deus é um rival da evolução. Acreditar em Deus não se trata disso. A doutrina da criação não tem nada a ver com a origem do mundo. Richard Dawkins não sabe disso. Ele não sabe, por exemplo, que o maior teólogo que já viveu, São Tomás de Aquino, achava bastante plausível o mundo não ter uma origem. São Tomás de Aquino pensava, acertadamente, que isso era uma questão para os cientistas. Não tinha nada a ver com teologia. A doutrina da criação não tem nada a ver com a origem do mundo, como crê, equivocadamente, Richard Dawkins. Se quiserem mesmo saber do que se trata, me procurem pessoalmente mais tarde que, por um preço bem em conta, eu conto para vocês. 
Silio Boccanera — No livro, o senhor critica a visão de Deus como criador de tudo, ou, como o senhor diz, como o “Grande Fabricante”. Mas a maioria acredita que Deus é isso.
Terry Eagleton —
A maioria acredita que o socialismo se resume a campos de concentração stalinistas. Muitas pessoas têm crenças com que não precisamos necessariamente concordar. A minha visão pessoal é... Por exemplo, Richard Dawkins acredita, sem exagero, que acreditar em Deus é o mesmo que acreditar em alienígenas, no Abominável Homem das Neves ou no Monstro do Lago Ness. Acreditar em Deus não tem nada a ver com isso! E não preciso acreditar em Deus para afirmar isso. É só observar as ricas tradições da teologia cristã, da teologia judaica, da teologia islâmica e tentar juntar os pedaços.
Silio Boccanera — O senhor colocaria o pensamento de outro entrevistado nosso, Chritopher Hitchens, na mesma linha? Há uma diferença de abordagem?
Terry Eagleton —
O que eu gosto na abordagem de Htichens sobre religião é a violência e a crueldade com que ele a trata. O Hitchens e eu fomos, há muito tempo, camaradas trotskistas, mas ele cresceu, ele amadureceu. Eu ia dizer que ficou sóbrio, mas talvez seja exagero. Enquanto isso, eu fiquei preso na minha perspectiva infantil, incapaz de aceitar a realidade. O que eu gosto na abordagem de Hitchens sobre religião é a falta de rodeios. Ele não diz de um jeito comedido e tolerante: “Se suas crenças são essas, eu aceito sem problema.” Ele diz que considera a religião repugnante. Bom, concordando ou não, isso é algo passível de argumentação. É mais fácil argumentar com Christopher Hitchens do que com o capelão da rainha. Ele não vai perguntar se você foi lavado no sangue do cordeiro, ele vai simplesmente lhe oferecer mais um licor. Hitchens e Dawkins acreditam, sem exagero, que as coisas, como um todo, estão melhorando. Eles admitem problemas pontuais, bolsões de miséria, opressão e infelicidade, mas, se não fosse esse preceito horrível chamado “religião”, se ela fosse retirada da equação, poderíamos marchar rumo a um novo iluminismo. Não consigo pensar em crença mais supersticiosa do que essa.
Silio Boccanera — Em seu livro Jesus Cristo – os Evangelhos, publicado aqui no Brasil, o senhor descreve a vida de Jesus Cristo. O senhor vê Jesus como um revolucionário, como Lênin ou Trotski o considerariam, como uma figura mística que teria sido esquecida se não fossem as reações dos líderes judeus e dos romanos, ou como o filho de Deus?
Terry Eagleton —
Eu posso tentar responder, mas quem quiser comprar esse livro baratíssimo e deveras interessante poderá descobrir por conta própria. Não fui eu que escrevi o livro. Ele se chama “Novo Testamento”. Foi escrito por outras pessoas há muito tempo. Eu escrevi que a idéia de Jesus como revolucionário, como foram Che Guevara ou Lênin, é totalmente anacrônica. Uma razão que, provavelmente, desmistifica Jesus como revolucionário, nesse sentido, é a sua crença no advento do fim da História. Não havia tempo para organizar urnas, partidos políticos e por aí vai. Jesus achava que a História estava chegando ao fim. Portanto, a política não era importante. Por outro lado, podemos entender “revolucionário”, que pode ter diversos sentidos, como alguém que aceita a natureza trágica da condição humana, ou seja alguém que aceita que é possível encarar corajosamente o fracasso, a ruína, a perda e a miséria, sem se transformar em pedra, e dizer: “Esta é a realidade da condição humana.” Para se obter a imagem ou o ícone da condição humana, é só observar um criminoso político crucificado, insultado e torturado, pois os romanos restringiam a crucificação a crimes políticos, e tentar refletir sobre isso. Essa seria a minha resposta a Christopher Hitchens e Richard Dawkins, e não um argumento abstrato ou teórico sobre a existência ou não de um ser supremo, como se estivéssemos falando do Abominável Homem da Neves. Mas como podemos interpretar isso? Como podemos interpretar a posição de que, somente através de um comprometimento obstinado com essa imagem de fracasso e ruína, que é o exato oposto do sonho americano, em todos os sentidos, poderíamos ter a chance de chegar a uma forma de vida nova e transfigurada? Falar sobre fé não significa falar sobre alguma questão intelectual, como a existência de um ser supremo, significa falar sobre alguém que, em meio a perplexidade e escuridão, se manteve comprometido, talvez sem saber por quê, com essa possibilidade de um amor transfigurador e um poder transfigurador. A nossa reação a isso me parece muito mais relevante para a política mundial atual do que uma afirmação intelectual sobre um ser supremo.
Silio Boccanera — Como teórico marxista autoproclamado, onde o senhor situa a expressão “o ópio do povo” de Marx?
Terry Eagleton — A
h, sim! Antes, eu gostaria de dizer que, no ano que vem, um livro baratíssimo e deveras interessante, no caso, escrito por mim, será lançado sobre Marx. Eu odeio livros com títulos provocativos, mas ele se chama “Why Marx Was Right” [Por Que Marx Estava Certo – no título em inglês, o autor faz um trocadilho, já que right serve tanto para dizer certo, como direita]. O propósito do livro... não é uma obra acadêmica. É para um público muito mais amplo. Eu pego dez dos argumentos mais comuns, mais batidos, contra Marx e, como dizem no críquete, rebato-os para fora do campo. Eu tento dar conta de cada argumento. As observações de Marx sobre religião são muito interessantes. Se pensarmos no atual radicalismo islâmico, a religião não é o ópio do povo, ela é o crack do povo. Essa frase é frequentemente mencionada fora de contexto. Alguém sabe o que Marx diz antes de “ópio do povo”? Ele diz: “A religião é o coração de um mundo sem coração. Ela é o gemido e o suspiro do oprimido. Ela é a alma de condições desalmadas. Ela é o ópio do povo.” É incrível como isso é citado fora de contexto. Eu concordo com Marx. A maioria das religiões... Aqui, eu concordo integralmente com Richard Dawkins e com meu velho amigo trotskista, Christopher Hitchens. A maioria das religiões se manifestou como uma forma perversa de opressão ideológica. É escandaloso que um documento como o Novo Testamento seja usado com esse intuito por ricos e poderosos, enquanto o Evangelho de Lucas, pelo menos, começa descrevendo a figura de uma jovem submissa e grávida: Maria, grávida de Jesus. Lucas põe na boca dela o que hoje sabemos ser um cântico zelote, o cântico dos judeus revolucionários e anti-romanos locais que o cristianismo conhece como “Canção de Maria” e que, segundo a tradição e a ortodoxia, quer dizer: “Conheceremos Deus por aquilo que Ele é quando virmos os famintos alimentados por dádivas e os ricos sendo expulsos de mãos vazias.” Gostaria de colocar essa questão a Richard Dawkins e Christopher Hitchens, pois é isso que Maria e Lucas identificam como Deus. Não tem nada a ver com o “ópio do povo”. Não sabemos por que Jesus foi crucificado. Talvez nem os evangelistas soubessem. Ele demonstram muita confusão a respeito. Quantos foram os julgamentos, por exemplo? Mas sabemos de uma coisa. É bem provável que ele tenha sido exterminado pela classe governante local, pelo sinédrio judeu, porque se temia que ele estava incitando uma revolução, o que traria a opressão do poder imperial romano sobre o povo judeu. Eu não acho que Jesus estava incitando uma revolução, mas aquela era a situação. E isso não tem nada a ver com o “ópio do povo”. 
Silio Boccanera — Ainda com relação ao “ópio do povo”, o senhor escreveu um artigo associando o “ópio do povo” ao futebol. O artigo saiu no jornal britânico Guardian. O senhor diz que “o futebol não é bom para quem busca mudanças sociais. Ele é o novo ópio do povo.” Já que o Brasil é louco por futebol, talvez possa elaborar um pouco mais.
Terry Eagleton —
Como estou no Brasil, eu retiro o que disse! Me perdoem. Me perdoem. Não me crucifiquem. Na verdade, não entendo nada de futebol. Mas, como sempre digo, a ignorância nunca me impediu de nada. Nunca deixe o desconhecimento impedi-los de fazer algo. Esse é o único conselho que eu tenho para dar. Podemos pensar na miríade de substitutos para a religião que existem na modernidade. Livrar-se da religião significa livrar-se de uma força ideológica muito poderosa. Na verdade, eu me arriscaria a dizer que essa é a forma mais poderosa e simbólica que a humanidade já testemunhou. Existe forma simbólica mais poderosa do que aquela que associa diretamente os detalhes do cotidiano de milhões de pessoas a uma verdade absoluta e transcendental? Não dá para competir com isso. Assim, quando a religião começa a fracassar na modernidade... É interessante ver como esse fracasso não se deve a ateus cabeludos como Richard Dawkins, que, na verdade, nem tem muito cabelo. O fracasso da religião está na própria modernidade. O capitalismo é inerentemente um modelo de vida descrente, secular, pragmático, racional e relativista, e, assim, ele tende a solapar, através de suas ações diárias, os modelos ideológicos, como a religião, ao mesmo tempo em que recorre a eles. Essa é uma contradição inerente às sociedades capitalistas. Mas o fracasso da religião precisa ser suprido com algo. Existiram diversas alternativas à religião no período moderno, sendo uma das mais interessantes e poderosas a cultura. Não me refiro à cultura no sentido de Balzac ou Beethoven, mas à cultura como uma forma de vida. Identidade, afinidade, aceitação, história, linguagem, símbolo. A cultura é o que faz as pessoas matarem. Querem uma definição de cultura? Hoje cultura é aquilo pelo que as pessoas morrem voluntariamente ou matam. A forma mais evidente disso, que é muito familiar neste continente, e muito familiar na minha terra, a Irlanda, é o nacionalismo. Se existiu uma religião moderna, para o bem ou para o mal, ele foi o nacionalismo. Mas mesmo o nacionalismo, num mundo globalizado, não consegue suprir a religião por si só. Precisamos de algo cerimonial, simbólico, ritualístico, que envolve milhões de pessoas, que tem tradição e história. E o que é melhor do que o futebol? O futebol é uma conspiração da classe dominante. A elite sentou em volta de uma mesa, numa sala livre de fumantes, e disse: “Como vamos mantê-los felizes, principalmente quando não estiverem trabalhando?” O lazer significa isso: o que fazer com as pessoas quando elas não estão trabalhando. E inventaram essa brilhante idéia chamada “futebol”, o que não entendo bem porque quase nunca vi. Mas eu sei disso.
Silio Boccanera — No seu livro de 2003, Depois da Teoria, publicado no Brasil, o senhor critica a cultura contemporânea e literária. O que há de errado na cultura literária contemporânea?
Terry Eagleton — Não acho que esse seja o tema principal do livro. 
Silio Boccanera — Está no livro.
Terry Eagleton — O tema principal é o que aconteceu com a teoria literária, com a teoria da cultura, porque há 20 ou 30 anos, ela ia muito bem e de repente parou. Acho interessantes as razões disso, como eu argumento no livro. Eu acho, por exemplo, que o declínio da teoria da cultura aconteceu paralelamente ao declínio da esquerda. Os melhores anos da teoria da cultura, o final dos anos 60 até o começo dos anos 80, foram os anos em que a esquerda ia muito bem. Acho que há uma ligação entre as teorias ambiciosas, o raciocínio ambicioso, e o sucesso da esquerda. Quando a esquerda parou de avançar tanto, a teoria começou a declinar. Então, o estado da cultura contemporânea literária não me preocupa tanto quanto isso. Porém, devo dizer uma coisa sobre a cultura contemporânea literária na Grã-Bretanha. Acho muito interessante e deprimente o fato de que as pessoas que foram mais veementes em sua reação apavorada ao islamismo radical, pessoas como Martin Amis, Christopher Hitchens, e em certa medida, mas menos em pânico, Ian McEwan...Essas são as pessoas que deveriam ser os guardiões da chama liberal. As mesmas pessoas que execraram muçulmanos comuns, inocentes, os denegriram com o rótulo do terrorismo, são as pessoas que confessam ser os intelectuais liberais britânicos. Eu incluiria Salman Rushdie nessa lista. Acho que há uma terrível ironia aí, pois as mesmas pessoas que deveriam defender a tolerância, a pluralidade e a diversidade deram o primeiro golpe, digamos assim. Não me entendam mal, o islamismo radical é realmente um fenômeno repugnante. São pessoas que explodem crianças em nome de Alá, e não há como defender isso. Mas quem excedeu o limite nesse assunto foram os liberais cultos de Londres. 
Silio Boccanera — Salman Rushdie esteve aqui e disse que isso é uma distorção do ponto de vista dele. Mencionou especificamente o seu nome e disse que o senhor mente sobre isso. Foram palavras dele. Ele disse que faz claramente a mesma distinção que o senhor fez entre o islamismo radical e o islamismo em geral. Porque o senhor critica Rushdie e esses outros autores por criticarem demais o islamismo em geral, como o senhor disse, e não apenas os terroristas. Ele disse que o senhor distorce a visão dele. O que acha disso?
Terry Eagleton — Bem, eu acho que há, é claro, diferenças individuais no grupo que mencionei, mas o que me alarma é que a linha que separa a crítica perfeitamente justificável ao islamismo radical e a “islamofobia” tornou-se tênue em alguns casos e foi ultrapassada repetidamente. Principalmente por Martin Amis, por exemplo, e também por Christopher Hitchens. Hitchens e Amis odeiam o islamismo porque odeiam todo tipo de religião. Eles têm direito a esse ponto de vista intelectual, mas não têm direito de confundir os milhões de muçulmanos do mundo com uma minoria especialmente violenta. Também devemos nos lembrar, ao falarmos de fundamentalismo, que há uma variante texana assim como há uma variante talibã. E me parece extraordinário essas pessoas não mencionarem isso. Elas não mencionam como a própria civilização ocidental está permeada de ponta a ponta por formas de fundamentalismo evangélico. Não preciso falar disso no Brasil, país que está muito ciente disso. De alguma forma, reserva-se o liberalismo para o Ocidente e o extremismo para o Oriente. Em parte, talvez seja porque a URSS não existe mais, então as pessoas precisam de outro bicho-papão. Mas o eixo entre fundamentalismo e liberalismo não pode ser mapeado pelo eixo Ocidente-Oriente, eu diria. Ele o atravessa completamente. Eu gostaria de ouvir gente como Salman Rushdie e Martin Amis dizer isso com mais veemência do que dizem em vez de falar como se a tradição do Ocidente estivesse totalmente livre da barbárie e o bárbaro sempre fosse o outro. O tipo de... A convicção liberal progressista, melhor exemplificada por Dawkins, mas que Hitchens compartilha, eu acho, diz que antes havia barbárie e agora há civilização, e o perigo abominável é podermos sempre ter uma recaída. Essa é a convicção liberal progressista padrão. É totalmente equivocada. Uma das boas razões para ser marxista, além do prazer de irritar as pessoas, é que os marxistas sempre afirmaram que a civilização e barbárie são dois lados da mesma moeda: Eles não são consecutivos, barbárie depois civilização, são sincrônicos. Em toda civilização há miséria, exploração, infelicidade etc. Eu não conheço nenhuma crença, exceto o marxismo, que diz, ao mesmo tempo, que a modernidade tem sido uma emancipação longa e escravizante para milhares de pessoas. Democracia, feminismo, republicanismo, democracia... Foi uma emancipação dos terrores dos antigos regimes e tem sido um pesadelo longo e indescritível. O marxismo une... Ele era chamado de “dialética”, quando os homens ainda usavam costeletas e jaquetas jeans. O marxismo tenta afirmá-las simultaneamente. Alguém que vê a civilização simplesmente como uma história de progresso triunfal, como acho que Dawkins vê, ou a vê simplesmente como a degeneração de um passado ideal não percebe essa dialética essencial.
Silio Boccanera — Combinando Marx, teoria e crítica literária, sua área, como o senhor acha que o marxismo, como ferramenta, pode ser mais útil para entender a literatura?
Terry Eagleton — Há uma caricatura da crítica literária marxista... Uma caricatura compreensível, porque muitas críticas são assim. Segundo ela, abrimos um romance e contamos o número de trabalhadores ou vemos se há minas ou fábricas. É como a caricatura vulgar da crítica literária freudiana, em que se conta o número de símbolos fálicos em cada obra. György Lukács, que talvez seja o maior crítico literário marxista, certa vez disse que o mais importante em uma obra literária, do ponto de vista político, histórico e ideológico, é a forma, a forma artística. Se eu fosse citar um crítico literário atual que faz isso magistralmente, porque, de certa forma, toda sua obra é sobre isso, eu diria que é Fredric Jameson, nos Estados Unidos. Jameson constantemente tenta demonstrar como a História reside no texto, nos seus detalhes linguísticos formais mais delicados e minúsculos. Acho que há uma tradição ilustre da crítica literária marxista, que inclui [Walter] Benjamin e [Theodore] Adorno, que tenta fazer exatamente isso. 
Silio Boccanera — Por obrigação, o senhor precisa ler muito, eu espero. O que o senhor leu recentemente que acha que vale a pena ler, que interessaria à platéia?
Terry Eagleton — Eu poderia citar vários livros meus.
Silio Boccanera — Eu devia ter pedido para não considerá-los.
Terry Eagleton — Então há outros livros? Perdão. Por isso eu escrevo tanto, quando quero ler um livro, eu escrevo um. Sempre achei muito invasivo ler o livro de outras pessoas, você se intromete na vida deles de certa forma. É uma pergunta muito difícil. Para começar, falo isso para agradar vocês de forma escancarada, eu preciso ler mais literatura brasileira. Li muito pouca literatura sul-americana em geral. Infelizmente, a única situação pela qual passei na América Latina foi ter sido preso pela polícia na fronteira do México, há muitos anos, quando eu lecionava com Jameson em San Diego. Se for a “pergunta da ilha deserta”, não tenho dúvida. “Qual livro eu gostaria de levar para uma ilha deserta?” Não há dúvida. É um dos melhores romances já escritos. Se alguém quiser saber qual é, fale comigo mais tarde, a sós, e, por uma quantia modesta... Não. Tudo bem. É Proust. O que eu sempre faço – fiz isso na longa viagem para cá – é pegar um volume de Em Busca do Tempo Perdido e mergulhar nele, ler o livro. Eu acho uma experiência delirante. Apesar de Proust ser considerado um autor muito difícil, ele é incrivelmente engraçado, em primeiro lugar. E o estilo dele é esplendido. Voltando um pouco à pergunta sobre a crítica literária marxista. A crítica literária marxista deve ligar a História à obra literária. Proust é um ótimo exemplo disso porque eu tenho uma teoria, não a espalhe: a extensão enorme das frases de Proust é resultado da Comuna de Paris de 1871. Isso deve parecer uma teoria pouco sensata para um crítico defender. A mãe de Proust estava grávida dele durante a Comuna de Paris e, como boa burguesa francesa, ela tinha medo de perder seus bens, sua vida, seu filho... Existe a teoria de que Proust começou a ter sua famosa asma por causa dessa experiência intrauterina. E a minha teoria é que a enorme extensão das frases de Proust é uma compensação inconsciente por sua falta de ar. É completamente impossível falar uma frase de Proust sem um tanque de oxigênio nas costas.
Silio Boccanera — A viúva do escritor Kingsley Amis disse que o senhor é “uma combinação letal de marxista e católico.” Tenho curiosidade de saber se essa combinação já o levou à Teoria da Libertação, que é muito forte na América Latina, ou, ao menos, era.
Terry Eagleton — Sim. Um dos meus maiores interesses na América Latina é isso. Nos anos 50, quando eu estudava em Cambridge, eu me associei ao que era chamado de movimento da esquerda católica na Grã-Bretanha e Irlanda. Um dos problemas desse movimento foi que nos organizamos pouco antes da Teoria da Libertação aparecer aqui. Nossos pensamentos precisavam se concretizar. Teriam se concretizado mais, eu acho, se tivéssemos nos organizado depois da Teoria da Libertação. Mas, com certeza, fomos muito influenciados por ela. Aliás, você falou que eu sou marxista e católico. Não sei se eu diria que sou católico. Quero dizer, eu reluto muito em me associar formalmente a essa instituição extremamente patriarcal opressora. Assim que o papa puser os pés na Grã-Bretanha, eu pretendo prendê-lo. Sempre achei interessante a questão da infalibilidade papal. A declaração do papa da sua própria infalibilidade foi infalível? Retroativamente, até que ponto ela vai? Se ela não foi infalível, então não é preciso acreditar nela. Para mim, a palavra “católico” sugere tudo isso. Porém, ao mesmo tempo, eu diria que tive uma criação católica que, simplesmente por acaso, foi muito inteligente. Quando eu cheguei ao ponto, aos 18 anos, em que qualquer pessoa normal, civilizada e decente teria rejeitado esse negócio, eu encontrei uma versão do cristianismo que fazia sentido político, ético e cultural para mim e, por isso, era mais difícil de abandonar. Ainda era possível abandoná-la, mas eu teria que... Os custos seriam altos. Minha objeção a vários tipos de ateísmo não é a falta de fé em Deus, mas é o fato de a maioria dos ateus pagar um preço baixo pelo seu ateísmo. O que eu quero dizer com isso é que eles nem se confrontaram com uma versão do cristianismo que custaria caro abandonar. Eu moro na Irlanda, e quase todo intelectual irlandês, homem ou mulher, talvez aconteça o mesmo aqui, é ateu de carteirinha, uma coisa desagradável. Mas, como sempre digo a eles, não há problema nisso. O problema é pagar um preço tão baixo por isso. Você precisa lutar para abandonar algo que tem valor. O sacrifício, uma ideia pouco popular entre os pós-modernistas de hoje... O sacrifício é o abandono de algo que você acha extremamente valioso. Senão não seria sacrifício. O celibato é um elogio à sexualidade – se for compreendido corretamente – porque ele diz que essa dádiva, essa capacidade tão preciosa, é algo que você rejeita deliberadamente, por certas razões. Por acaso, é claro, na Igreja Católica, não é o celibato que é sacramental, mas o casamento. São Paulo deixa bem claro que a união sexual de duas pessoas é que é o sinal do amor de Deus. Não é o celibato, mas o casamento que é sacramental. Mas você tem que... Se você rejeita uma crença, o cristianismo, o que quer que seja, isso precisa ter algum significado. O problema da maioria dos ateus hoje é que isso não tem muito significado. Você herda sua fé assim como herda a cor dos olhos etc. Uma das razões disso – para concluir, peço desculpas por demorar tanto tempo -, é uma afirmação que fiz antes: eu acho que as civilizações capitalistas modernas são apenas lugares inerentemente sem fé. O que eu quero dizer com isso é que o capitalismo não depende das suas crenças para sobreviver ou para se reproduzir. O Estado capitalista não está nem aí para o que você acredita desde que sua crença não o enfraqueça ou que ela não o faça interferir nas crenças dos outros. É isso que chamamos de “liberalismo”. Uma doutrina muito honrada. O que pode afetá-lo não é a fé que mantém o sistema funcionando. É algo mais cruel, material e egoísta. Quando esse sistema se encontra cara a cara com o inimigo, o islã radical, que não tem absolutamente nenhum tipo de problema com suas fundações, com suas crenças ou suas realidades transcendentais, então se vê preso numa crise interna. Isso, para mim, é um fato tão importante quanto mal explorado da tão aclamada “Guerra ao Terror”. O islã radical confronta o ocidente com aquilo que já foi a sua grande necessidade de crença e sua própria incapacidade crônica de crer. O resultado é que o mundo está tendendo à divisão entre aqueles que acreditam muito e aqueles que acreditam pouco. Entre os evangélicos fundamentalistas de um lado e, você sabe, do outro, pessoas que não acreditam em nada mais do que seus extratos bancários e suas crianças. O mais interessante disso tudo é que cada uma dessas partes empurra a outra em direção a uma versão extremada de si. Quanto mais sem raízes, cosmopolita, secular e céticas as civilizações se tornam, mais os patriotas e os fundamentalistas se agarram a essa imagem tão limitada de caipira. Quanto mais eles seguem nessa direção, mais a outra parte reage da mesma forma. Estamos presos, nesse momento, numa espécie de dialética circular e congelada, na qual cremos muito em muito poucas coisas. Mas há esperança pois, nesse intervalo, pessoas como eu, que estão no meio do caminho, podem influenciar aqueles que não creem em muito e aqueles que não creem em pouco... Estou sendo irônico, ok? 
Silio Boccanera — Mas o senhor diz, por exemplo: “Deus sustenta as coisas por Seu amor e fez o mundo simplesmente por amor e deleite.” O que isso significa?
Terry Eagleton — Isso é como citar uma frase de “Moby Dick”, de Shakespeare, de Keats ou de Neruda e perguntar o que significa. 
Silio Boccanera — O conceito expresso no livro...
Terry Eagleton — Vou tentar responder à pergunta. Não se pode destacar uma passagem dessas sem um contexto, sem uma cultura, sem uma história, e perguntar o que significa. Esse é o tipo de erro racionalista que Richard Dawkins cometeria. Aliás, eu gostaria de dizer que tenho grande admiração por sua incrível capacidade de comunicação da Ciência e, além disso, por sua corajosa campanha contra as opressões odiosas provocadas pela religião hoje. Ainda assim, Richard Dawkins tem uma visão nada tradicional, uma visão muito racionalista do significado. O filósofo Alasdair MacIntyre afirmou certa vez que “o Deus rejeitado nos séculos 19 e 20 foi inventado no século 17”. Ele não tem nada a ver com o Deus de Abraão, Isaac e Jacó.
Silio Boccanera — Um dos argumentos que Dawkins expôs aqui, ano passado, foi que as crenças religiosas são baseadas, em grande parte nas circunstâncias do nascimento. Ninguém nasce católico, muçulmano ou judeu. As pessoas têm essas condições determinadas pela família. E uma das críticas feitas por ele é que não se pode chamar uma criança de católica porque a criança não teve a oportunidade de pensar a respeito e tomar uma decisão. Então, até que ponto o senhor acha que a maioria das pessoas tem crenças religiosas simplesmente devido ao ambiente em que nasceram e à doutrinação?
Terry Eagleton — Não há dúvida.
Silio Boccanera — O senhor considera que religião e resultado de doutrinação?
Terry Eagleton — A religião é geralmente guiada pelo ambiente familiar. Apesar de muitas pessoas, infelizmente, não refletirem criticamente sobre suas crenças. Do mesmo modo, imagino que Richard Dawkins tenha nascido numa família ateia e racionalista. Espero que ele tenha conseguido refletir criticamente sobre isso e tenha se perguntado se esse racionalismo é conseqüência de doutrinação ou é algo com que ele se compromete genuinamente. Um dos problemas de Dawkins... Me desculpem por insistir nessa pessoa em particular. O debate é muito mais amplo. O Dawkins realmente pensa que toda fé é cega. Richard Dawkins não percebe que, como qualquer ser humano, ele tem muitas crenças. Sem dúvida, não são crenças religiosas, mas Richard Dawkins tem as suas verdades. Ele se envolve com muitas coisas, como qualquer outra pessoa. E não é algo insensato de se fazer. O Dawkins comete o erro herético – a heresia conhecida como “fideísmo” – de achar que fé e razão estão completamente separadas. É como dizer que amor e razão são completamente separados. Como se estar apaixonado por alguém nos impossibilitasse de explicar a causa da paixão e de comunicar aos outros que estamos apaixonados, o que não é verdade. Então, eu concordo. Infelizmente, a verdade é que a maioria de nós – budistas, católicos, ateus, racionalistas – adere automaticamente à crença familiar, mas alguns tentam adotar um distanciamento crítico.
Silio Boccanera — No seu livro de 2002, Marxism and Literary Theory, ainda sem tradução no Brasil, o senhor diz: “O que morreu na URRS era marxista apenas no mesmo sentido em que a Inquisição era cristã.” Então o senhor não perdeu a sua fé? Em Marx, não em Deus.
Terry Eagleton — Sabe... O socialismo sobreviveu a todo tipo de crises e passa por uma crise muita séria atualmente. Acho que um dos motivos de ele ter sobrevivido é por ser uma ideia brilhante. E... Você sabe... Quando algumas pessoas, com muita presunção, disseram que o marxismo estava acabado, morto, não tinha nada a contribuir ao mundo moderno, houve uma imensa crise do capitalismo, e o marxismo não é nada além de uma análise das contradições e crises internas do capitalismo. Não estou dizendo que todo mundo deva ser marxista. Eu começo esse livro incrivelmente barato sobre Marx dizendo que tenho muitas críticas a Marx. Não conheço um freudiano que aceite todas as palavras de Freud. Não conheço um darwinista, fora Richard Dawkins... E com certeza não sou um marxista que acredita em tudo que Marx disse, incluindo que o colonialismo na Índia foi algo maravilhoso. Não é uma verdade incontestável. É claro que não. Então, quando você pergunta se eu não perdi a fé... Primeiro, todo mundo tem fé em alguma coisa. Fé no sentido de um compromisso que define o self, quem você é, é indispensável à identidade humana. Pode não ser fé no marxismo ou no cristianismo, mas, com certeza, é fé em alguma coisa. Fé é algo de que você descobre que, no fim das contas, não pode escapar. Por mais que você queira, por mais inconveniente que seja, mesmo que você esteja sendo crucificado, você literalmente não pode fugir dela. E, quanto a isso, eu acho que, provavelmente, se você pensar bem todo mundo tem algum tipo de fé.
Silio Boccanera — Dentro desse contexto de fé, que foi o que eu usei, claro, o senhor acredita na idéia marxista de uma sociedade sem classes? “A cada um, de acordo com suas necessidade...”
Terry Eagleton — Acredito que uma boa razão para ser marxista é muito simples e demonstra bom senso: há suficiente riqueza no mundo, não para criar uma utopia, pois Marx não estava nem um pouco interessado em utopia... Esse é outro mito vulgar, pois Marx começou sua obra combatendo o pensamento utópico. Marx se recusou repetidamente a prever o futuro, mas ele pensava, e acho que demonstrava bom senso nisso, que havia suficiente riqueza acumulada, por causa da longa história do capitalismo, para tornar as coisas muito mais fáceis para uma grande maioria das pessoas. Não para criar perfeição. Os materialistas, por definição, não se interessam pela perfeição. O material não é perfeito. Se você perguntou, ao falar de “sociedades sem classe”, se teríamos recursos para libertar as pessoas de forma de trabalho degradante e exploradoras, em grande escala, acho que não há dúvida disso. O problema não é recurso material, mas vontade política. E acho que a originalidade de Marx... Há pouca coisa original em Marx, me permita provar isso. O próprio Marx disse que não inventou o conceito de classe. Disse que o conceito é muito mais antigo. Ele não inventou nem o conceito de luta de classes. Ele não inventou a idéia de comunismo, que é muito antiga. Ele não inventou a idéia de revolução, que, no mínimo, remonta à Revolução Francesa. Ele não inventou a idéia de materialismo e não inventou a idéia de determinismo ecnomico. Até Freud, que não simpatizava com o marxismo, acreditava que a maior motivação da sociedade humana era econômica, a necessidade de trabalhar. Freud pensava que, sem essa necessidade, ficaríamos deitados à toa o dia todo, em interessantes posições de deleite, vestindo longas vestes de cor roxa, tocando cítara e recitando Homero uns para os outros. Por isso, Oscar Wilde era socialista. Oscar Wilde era socialista porque, como qualquer pessoa racional, ele não gostava de ter que trabalhar. É a única boa razão para ser socialista se você não gosta de trabalhar. Você não participa dessa ridícula glorificação capitalista do trabalho, da disciplina etc. Marx viu que havia uma grande chance, dada a existência do capitalismo... Ele não existia na Rússia de 1917. Dada a acumulação de riqueza do capitalismo, Marx achava que havia boa chance de libertar muitas pessoas de funções degradantes. Mesmo que elas não ficassem à toa o dia todo, recitando poesia, elas poderiam ser muito mais felizes. Marx não acreditava no trabalho, acreditava em lazer. Ele era apaixonadamente dedicado à idéia de autorrealização individual. Se você quiser saber o que é moralidade para Marx... Uma das coisas mais interessantes em Marx é que ele entende que qualquer discussão sobre moralidade não pode começar questionando dever, obrigação, responsabilidade etc. Essas coisas têm o seu lugar, mas elas devem tomar lugar em um contexto maior e mais amplo, a questão que Marx chamou de “autorrealização do indivíduo”. Marx queria uma sociedade em que indivíduos pudessem ser eles mesmo, desenvolver-se, realizar-se e expressar-se de forma muito mais rica, diversificada e livre do que é possível em uma sociedade de classes. Acho que esse é um objetivo muito nobre, que merece ser almejado.
Silio Boccanera — Tenho aqui algumas perguntas da platéia. Jonas Stevens quer saber se o estudo literário teve alguma influência na sua opinião sobre a fé e religião.
Terry Eagleton — Opinião sobre o quê?
Silio Boccanera — A fé e a religião. A influência da literatura, do que você leu.
Terry Eagleton — Não diretamente, mas uma coisa que me interessa na ficção, e na literatura também, e na literatura também, eu suponho, é que elas são verdades, mas verdades corporificadas, verdade encarnadas. Não são verdade abstratas, proposicionais, mas verdade no sentido de experiências vividas. A literatura não tem a ver só com o significado da experiência, mas com a experiência do significado. Se você quisesse definir poesia, não seria muito errado dizer que ela é o significado como experiência, o significado com algo sensorial, o significado encarnado. O poema é um tipo de corpo, o lugar em que o significado e o corpóreo, a materialidade, se unem. A materialidade da linguagem e o seu significado. O somático e a semântica, digamos, se unem na literatura. E eu acho, apesar de eu não ter certeza absoluta, pois preciso refletir mais... Acho que isso tem implicações teológicas porque a teologia se preocupa com o corpo como linguagem, como uma forma de presença, o corpo como verbo, o corpo como comunicação. Um sacramento é um sinal de caráter performativo, um sina que realiza algo. Em certo sentido, isso também é válido para o que chamamos de literatura. Então estou interessado em um sentido um tanto esotérico, em relações desse tipo entre a teologia e a idéia da literatura. Não tanto como certas obras literárias influenciaram minha crença religiosa, mas a própria ideia de literatura.

Fonte: http://www.conjur.com.br/2010-dez-10/entrevista-terry-eagleton-escritor-critico-literario-britanico

Mas, como assim espertinho?

Na Paraíba, homem move ação judicial contra o Papa e exige pagamento de R$ 1 bi

O autor acusa o Bento XVI de se omitir perante as denúncias de pedofilia na Igreja Católica e pede que ele seja condenado a pagar idenização por dano moral

Da Redação do pe360graus.com
A Justiça Federal da Paraíba registrou uma ação, no mínimo, inusitada. Luiz Carlos Barbosa Ângelo está movendo uma ação na 1ª Vara contra o Papa Bento XVI. Na petição, assinada pelo advogado Gilvan Lopes Farias, Luiz Carlos acusa o Papa de se omitir perante as denúncias de pedofilia na Igreja Católica e pede que o cardeal seja condenado a pagar o valor de R$ 1 bilhão por dano moral.

Luiz Carlos diz que parte desse dinheiro será doada para algumas instituição filantrópicas carentes no mundo. A ação está aguardando decisão do juiz federal João Bosco Medeiros de Sousa, titular da 1ª Vara.


Fonte: pe360graus