quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Legalismo ou Coerência?


“Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual é a vontade do Senhor”

Ef 5:17

Rev. Flávio Adair (¬)



Quero começar preparando o leitor de que tratarei de um assunto que em nosso meio causa discussão, mas quase sempre termina com indefinição: Abstinência de bebidas alcoólicas é legalismo ou coerência?



Para nós cristãos, legalismo está relacionado ao uso e abuso das Escrituras (ou não) para ditar regras de procedimento para o crente a fim de que este venha obter sua salvação ou no mínimo demonstrar maior espiritualidade. Normalmente pessoas que se utilizam destes abusos, distorcem a Palavra de Deus por desconhecimento ou como forma de manipular os outros e, assim, contrariam a liberdade e salvação que nos foi garantida única e exclusivamente pelo sacrifício de Jesus Cristo.



A coerência pode ser dita como a relação harmônica entre situações, acontecimentos ou ideias, ou seja, ligação, conexão ou lógica entre ideias.



Para nós cristãos, não existe coerência entre legalismo e a nova vida em Cristo Jesus, “estais, pois, firme na liberdade com que Cristo nos libertou e não torneis a meter-vos no jugo da servidão” (Gl 5:1)



Por outro lado, não é incomum presenciarmos pessoas defendendo o uso do álcool como algo inofensivo e sem consequências no meio espiritual.



Quero dizer que não ignoro que existem muitas pessoas que podem ingerir álcool sem se tornar escravos do mesmo, sei também que a Bíblia não condena diretamente a ingestão de bebidas alcoólicas e, sim, o seu uso abusivo; sei que em alguns casos foi recomendado o uso do vinho com efeitos terapêuticos, assim com alguns médicos, contestados por outros, recomendam uma dose diária de whisky para alguns de seus pacientes.



Não quero entrar em trocas de versículos, utilizando-os para recomendar a abstinência alcoólica, apesar de encontrar na Bíblia suficientemente textos para isto.



Quero sim, dizer que, ao mesmo tempo em que sou contra o legalismo que escraviza, e a favor da liberdade em Cristo Jesus, sou a favor do ensino coerente com o Evangelho, a Boa notícia que pretende trazer vida e vida em abundância.



Ao contrário do legalismo que se contradiz com o Evangelho da salvação, coerência é uma exigência para todo o crente e especialmente para pastores e, por isso, quero perguntar: Onde está a prática da conhecida frase: “católicos para toda a verdade de Deus e protestantes contra todo o erro humano”?



O álcool está sendo combatido pelo estado laico como grande causa de males sociais, fazendo parte das “drogas lícitas” que mais causam dependência, superando a maconha, cocaína, LSD e o crack, segundo lugar nas estatísticas de causa de mortes (direta e indiretamente) superando o câncer e a AIDS, grande inimigo dos adolescentes que começam a ingerir bebidas alcoólicas na faixa etária entre 12 e 13 anos e, muitas destas, são levadas a prostituição .



Se ingerido por longo período, tem efeito corrosivo sobre os órgãos, como fígado e pâncreas causando a cirrose. Tem efeitos devastadores sobre o Sistema Nervoso Central, causando diminuição dos sentidos, prejudicando a coordenação motora. O uso e abuso do álcool tiram a razão do indivíduo, levando-o, muitas vezes, a cometer crimes.



Fatores agravantes e que devem ser levados em conta especialmente por nós pastores, são: a situação social, econômica e emocional. Quem já teve oportunidade de acompanhar indivíduos e até famílias inteiras destruídas por este mal, sabe muito bem o que estou falando.



O Código Nacional de Trânsito diz que duas latas de cerveja, dois copos de vinho ou uma dose de bebida destilada significa estado de embriaguez. Será que simplesmente sortearam este numero? E, sendo verdade, como fica ao crente que ultrapassa essas medidas a frase “não vos embriagueis com vinho..,, mas enchei-vos do Espírito Santo” Ef 5:18 é legalismo ou coerência?



Usar a cultura étnica ou regional para defender o uso do álcool também não é coerente com o Evangelho, pois teríamos muita dificuldade inclusive em combater o legalismo.



Eu mesmo, como descendente de italianos e alemães, tomei meu primeiro porre de vinho aos nove anos de idade e, mesmo passando dois meses sem poder sentir o cheiro de vinho, fui visto por meus colegas como “homem”.



O álcool destrói física, emocional e espiritualmente homens, mulheres e crianças. Qual a coerência com o Evangelho?



Poderia escrever um livro a este respeito, montar sites, desenvolver campanhas, carregadas de números autênticos, testemunhos verídicos, e exemplos sem fim, mas acredito que pessoas especializadas e autoridades já o têm feito com mais propriedade do que eu; gostaria apenas de chamar a atenção da Igreja para um discurso coerente com a vida que Jesus Cristo espera de nós.



Quando iniciei meus estudos no Seminário Batista, ouvi de um professor a seguinte pergunta: “na sua igreja as pessoas fumam e bebem não é?”. E eu como anglicano que crê na Obra do Espírito Santo respondi: “correção professor, na minha igreja sempre tem pessoas que ainda fumam e que ainda bebem, na sua não?



Desde o começo, nunca achei que beber, fumar, mentira, adultério e etc., fossem motivos para exclusão ou sequer acepção de pessoas, mas sempre foram, para mim, alvo de pregação e ensino contra sua práticas, não por legalismo, mas por coerência com os ensinos do Senhor de uma vida saudável, espiritual, emocional e física.



Evangelho para todo o homem está coerente com Evangelho para o homem todo, não?



Durante anos temos levado centenas de homens ao encontro com Jesus Cristo através do Cursilho de Cristandade. Ali tenho presenciado seres perdidos, depravados, insensíveis ao mundo e às suas próprias famílias serem renovados pelo Espírito Santo de Deus (eu sou um). Tenho visto homens pobres e ricos, desconhecidos e influentes na sociedade, colocarem-se de joelhos, entregando suas vidas a Cristo e decidindo fazer tudo novo.



Mas, durante anos, tenho ouvido homens testemunharem que em suas decúrias, escutam que não é problema nenhum a ingestão de bebidas alcoólicas para o crente. O problema maior para mim não é exatamente esta afirmação que pode ser vista e dita de várias formas, assim como sua interpretação. O problema é que não me recordo de nenhum estudo de decúrias que tratem deste assunto e me pergunto: Por que ele está sempre presente em pelo menos uma decúria por Cursilho e, às vezes, levantado por líderes?



Onde está a coerência com o “torna-te padrão” que Paulo exorta a Timóteo?



Sabemos que muitos não perseveram por questões pessoais, mas outros se afastam porque sendo “normal” não conseguiram se afastar dos bares e abandonaram a decúria, outros não querendo sequer testar sua capacidade de superação contra o álcool decidiram por outras igrejas em que a ingestão alcoólica não é proibida, pelo menos não é incentivada; quanto a estes, glória a Deus, mas, e quanto aos outros? Estamos preparados para responder ao Senhor coerentemente?



Quero ainda lembrar que é impossível aos olhos humanos determinar quem está predisposto ao alcoolismo, quando alguém de fato se tornará de um potencial alcoólatra em um alcoólatra compulsivo. Quem nunca foi, deveria ir à uma reunião de Alcoólicos Anônimos, algumas acontecem em Igrejas anglicanas, outras ao nosso lado, não é difícil encontrar e, como já disse, a literatura a esse respeito também é farta.



Neste assunto tão polêmico e cheio de argumentos, recorro a Paulo que falando da liberdade dos cristãos exorta-nos para que esta mesma liberdade não se torne motivo de tropeço para outros e que nosso conhecimento (ou maturidade espiritual) não destrua o mais fraco, pois isto se torna imediatamente pecado contra esse irmão e contra Cristo.



Se Paulo naquele contexto afirma “é por isso que, se a comida fizer meu irmão tropeçar, nunca mais comerei carne, para não lhe servir de tropeço” 1 Co 8:13, eu, em nosso contexto, afirmo: Se beber fizer meu irmão tropeçar, prefiro não defender a ingestão de bebidas alcoólicas.



Não por legalismo, mas por coerência!



Que o Senhor nos abençoe e tenha misericórdia de nós.



¬ Rev. Flávio Adair Torres Soares é Presbítero na Diocese do Recife; Pároco da Paróquia Anglicana Cristo Libertador, em Valentina, João Pessoa-PB, no Arcediagado PB/RN.